
O sindicalismo foi, e continua a ser, uma das maiores ferramentas de transformação social do mundo do trabalho. Conquistas como o horário de trabalho regulado, os aumentos salariais, as férias pagas, a segurança no emprego ou os direitos parentais não foram ofertas generosas — foram vitórias alcançadas através da luta colectiva e da organização sindical.
Quando actua com independência, o sindicalismo muda vidas de forma concreta e duradoura. No entanto, essa força tem vindo a ser fragilizada. Cada vez mais, observa-se uma preocupante instrumentalização dos sindicatos por forças políticas. Em vez de estarem ao serviço de todos os trabalhadores, alguns sindicatos tornam-se extensões de agendas partidárias, mais preocupados em marcar posição no espaço político do que em obter melhorias reais nos locais de trabalho. Essa partidarização tem um custo elevado. Quando o sindicalismo perde objectividade, perde também eficácia. A luta laboral passa a ser percebida como manobra ideológica, o que afasta muitos trabalhadores e compromete a credibilidade da negociação. Além disso, enfraquece o sindicalismo como força transversal, que deveria unir trabalhadores com diferentes visões políticas em torno de objetivos comuns. É essa união em prol de objectivos e não de agendas que faz a diferença.
Mas há outro problema que corrói silenciosamente a legitimidade sindical: a apropriação das estruturas por interesses pessoais. Os dirigentes sindicais não podem e nem devem transformar a sua função numa plataforma própria, porque correm o risco de afastar-se da realidade dos trabalhadores que deveriam representar. Quando o sindicalismo serve o pessoal, deixa de servir o coletivo. E perde-se o seu sentido. Isso mina a legitimidade da acção sindical e fragiliza o vínculo com a base.
O sindicalismo só é forte quando é feito por quem vive, compreende e partilha os desafios reais do dia a dia laboral, trabalhando lado a lado.
A força dos sindicatos reside na sua independência: face aos partidos, face às agendas pessoais e face a qualquer lógica que não seja a defesa clara, firme e estratégica dos direitos dos trabalhadores. É essa independência que garante objectividade, credibilidade e capacidade de negociação. Se o sindicalismo quer voltar a conquistar, a unir e a mudar vidas, precisa de se recentrar na sua missão original. Menos política de cartilha. Mais acção concreta. Menos protagonismo pessoal. Mais representação real.
Só assim poderá voltar a ser o motor de justiça e progresso que o mundo do trabalho tanto precisa.
Autor: Luis Silva.
Nota: É o primeiro artigo do “Lado B”, que reflecte opiniões pessoais dos leitores. O Notícias de Sines não subscreve a qualquer tipo de ponto de vista dos artigos do “Lado B”.