O sonho inacabado da Fábrica Alfa Sud em Sines.

Na década de 1970, Portugal apostava na industrialização como motor de desenvolvimento económico, especialmente no Alentejo Litoral, até então marcado por uma forte ruralidade e escassa actividade industrial.

Foi neste contexto particular que surgiu o projecto da Fábrica Alfa Sud em Sines — um ambicioso plano que previa a instalação de uma unidade de montagem automóvel ligada à italiana Alfa Romeo, e que viria a tornar-se um dos mais emblemáticos fracassos industriais do país. O projecto tinha como base uma parceria entre o Estado português e a Alfa Romeo, que à época era uma empresa pública italiana. A ideia era replicar em Portugal parte do modelo de produção da fábrica de Pomigliano d’Arco, onde se fabricava o Alfasud, um modelo popular concebido para o segmento médio europeu.

A nova unidade seria instalada em Sines, um território em plena transformação graças ao projecto do complexo portuário e industrial que prometia revolucionar a economia regional e nacional. A localização oferecia vantagens logísticas claras: proximidade ao novo porto de águas profundas, acesso facilitado a mercados internacionais e disponibilidade de terreno e mão de obra. Estava previsto que a fábrica produzisse milhares de veículos por ano, contribuindo significativamente para o emprego na região e para a criação de uma cadeia de valor nacional na indústria automóvel. Contudo, o destino da Alfa Sud em Sines foi breve e conturbado.

A revolução de 25 de Abril de 1974 trouxe profundas mudanças ao país, e a instabilidade política e económica que se seguiu afectou a confiança dos investidores. Ao mesmo tempo, a própria Alfa Romeo enfrentava problemas financeiros e organizacionais, e o projecto começou a perder tração. Com dificuldades na mobilização de capital, atrasos nas obras e falta de garantias sólidas, a fábrica acabou por nunca entrar em funcionamento. Algumas infraestruturas chegaram a ser iniciadas, mas a produção automóvel nunca se concretizou.

Com o tempo, as instalações degradaram-se ou foram desmanteladas, e o que resta hoje são memórias vagas e relatos locais de uma promessa de progresso que nunca se cumpriu. A história da Alfa Sud em Sines tornou-se, assim, símbolo de uma época de grandes esperanças e de oportunidades falhadas. Para muitos habitantes da região, o projecto representava a hipótese real de transformação social e económica; para os historiadores, é um exemplo claro de como o planeamento industrial, quando mal articulado com o contexto político e empresarial, pode rapidamente transformar-se em ruína.

Apesar de esquecido por muitos, o episódio da Alfa Sud continua a ser um ponto de referência nos estudos sobre industrialização em Portugal. Não apenas pelo que poderia ter sido, mas pelo que revela sobre as dinâmicas de decisão, os riscos do investimento externo sem garantias estruturais e a importância de alinhar ambição com sustentabilidade institucional.

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