Lado B: “Vasco da Gama – Um Homem do seu tempo.”

Em tempos em que tantas figuras históricas são revistas e analisadas à luz dos valores contemporâneos, importa recordar que a História não pode ser lida com os olhos do presente.

Vasco da Gama, navegador maior da gesta dos Descobrimentos portugueses, tem sido alvo de interpretações modernas que, muitas vezes, ignoram o contexto em que viveu. No entanto, para compreendermos a verdadeira dimensão da sua figura, é essencial recordarmos que foi, antes de mais, um homem do seu tempo. Foi num século XV marcado pela expansão europeia, pela fé cristã profundamente enraizada e por uma lógica de conquista e afirmação imperial que Vasco da Gama surgiu como protagonista de um feito sem precedentes: a ligação marítima entre a Europa e a Índia. Numa época em que os oceanos representavam o desconhecido e o perigo, a sua viagem foi uma demonstração de audácia, inteligência e liderança.

Graças a ela, Portugal projectou-se no mundo e inaugurou uma nova era nas relações comerciais e diplomáticas entre continentes. É evidente que, nos dias de hoje, certas acções levadas a cabo durante as suas expedições – como o confronto com navios muçulmanos ou a imposição da força em determinados portos, suscitam desconforto. Todavia, esses actos não devem ser analisados fora do seu contexto. A guerra era, então, um instrumento legítimo da política entre potências. O mundo de Vasco da Gama não conhecia os direitos humanos nem os princípios éticos que hoje regem a convivência internacional. Esperar que ele agisse de acordo com valores modernos é cair num anacronismo histórico que apenas empobrece a compreensão do passado. Reduzir Vasco da Gama a um símbolo de opressão é esquecer que foi também um símbolo de coragem, de tenacidade e de génio náutico. A sua missão não era pessoal, mas sim política: cumpria ordens da Coroa, representava os interesses de um reino que, como todos os outros da época, procurava expandir-se e garantir a sua sobrevivência num cenário competitivo e violento. A sua figura deve ser vista no quadro da missão civilizacional que Portugal entendeu desempenhar, com todos os seus méritos e contradições.

O legado de Vasco da Gama não se esgota na sua chegada à Índia. Representa a abertura de novas rotas, a criação de pontes entre culturas, o início de uma era global que, com todas as suas imperfeições, moldou o mundo em que vivemos. Seria um erro, e uma injustiça histórica, apagar ou diminuir o seu papel por não corresponder às sensibilidades actuais. Devemos olhar para a História com espírito crítico, sim, mas também com rigor e equilíbrio. Honrar a memória de Vasco da Gama é reconhecer que a grandeza de um povo também se constrói com os seus navegadores, os seus exploradores e os seus visionários. Foi graças a homens como ele que Portugal escreveu algumas das páginas mais notáveis da História universal.Vasco da Gama não foi perfeito, nenhum homem o é, mas foi grande. E é como grande que deve ser lembrado.

Autor: Luis Carvalho

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