Lado B: “Terminal Vasco da Gama: Progresso para quem?”

A construção do Terminal Vasco da Gama, em Sines, é um exemplo preocupante ( para alguns) de como grandes projectos de infraestrutura podem avançar com promessas de progresso, enquanto ignoram as fragilidades e necessidades reais do território onde se inserem.

Embora apresentado como uma peça-chave para o crescimento económico do país, o terminal representa uma ameaça significativa ao equilíbrio ambiental da costa e ao modo de vida das comunidades locais. Estudos de impacto ambiental já alertaram para alterações severas no regime sedimentar, que colocam em risco zonas como a praia de São Torpes, um espaço importante para o surf e o turismo local. A erosão costeira que pode resultar da construção comprometerá não só a biodiversidade, mas também actividades económicas ligadas ao mar que sustentam mufamílias da região.

Para agravar a situação, a construção deste megaprojecto ocorre num contexto local marcado por falta de habitação acessível, ausência de investimento em infraestruturas sociais e dificuldades crónicas no acesso a cuidados de saúde. Enquanto milhões de euros são canalizados para concretização de uma expansão portuária, muitos habitantes enfrentam diariamente problemas básicos: jovens que não conseguem arrendar casa, idosos sem médico de família, e famílias que veem os seus modos de vida ameaçados por decisões tomadas longe do território.

A ideia de desenvolvimento torna-se assim profundamente assimétrica, pois beneficia quem chega de fora, mas negligencia quem já cá está. Além disso, o processo de consulta pública revelou-se muito, mas mesmo muito insuficiente.

Muitas das preocupações levantadas pela população foram ignoradas ou respondidas com vaguidade. A promessa de mais de 1.300 empregos directos parece insuficiente para compensar o potencial desaparecimento ou irrelevância das pequenas actividades. Em vez de servir como uma âncora de progresso equilibrado, o Terminal Vasco da Gama corre o risco de acentuar desigualdades e alienar os próprios habitantes.

O que está em causa não é o crescimento em si, mas sim a forma como ele é feito: à revelia da comunidade, sem respostas às suas necessidades mais básicas, e com consequências que podem ser irreversíveis para o ambiente e o tecido social local. Sem uma mudança clara na abordagem: Com diálogo real, investimento social paralelo e respeito pelo território, este projecto pode acabar por representar não um salto em frente, mas um profundo retrocesso no que diz respeito à justiça territorial e ao verdadeiro desenvolvimento sustentável.

Autor: André Sousa

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