
O Centro de Artes de Sines recebe, do próximo sábado, até 15 de outubro, a exposição “Balumuka! – Narrativa poética da liberação…ou ainda, Rebelião Poética Kaluanda”, com curadoria de Kiluanji Kia Henda e André Cunha.
A exposição, produzida pela Kizenji, Pesquisa e Intervenção, com o apoio do Município de Sines, é inaugurada no sábado, 12 de julho, às 16h00.Traçando um período cronológico de 1960 a 2025, esta exposição coletiva apresenta uma produção artística multidisciplinar que se centra no som (e por consequência na imagem e no movimento) – a prática comunal (i) à sua volta capaz de sustentar resistência e as relações sociais que este produz. Os ritmos e movimentos intensos, por vezes turbulentos, que se recusam serem capturados no enquadramento vil de realidades opressivas e preconceituosas, transportando na sua expressão artística a possibilidade de transformação radical. Desde os anos da guerra anticolonial, passando pelo longo período da guerra civil, até aos anos de paz, mas ainda assim, numa sociedade submersa num profundo caos social, o ímpeto criativo resistiu aos momentos mais desafiantes da história, criando um lugar de resistência e esperança, em tempos de intolerância e extrema violência. Além do seu importante aspeto interventivo e do inesgotável exercício de imaginação, toda esta criação artística tornou-se num valioso e relevante arquivo.
Este arquivo ganhou um valor inestimável num país onde a memória tem sido sistemicamente apagada, outrora pelos os estratagemas coloniais, e nos dias de hoje, pela negligência e incapacidade institucional em investigar, promover e preservar o vasto património artístico e cultural.Apresentam-se cinco filmes documentários, que cobrem o período de 1978 a 2018, desde as expressões artísticas populares ao olhar da criação contemporânea.
O histórico filme “Carnaval da Vitória” (1978) de António Ole, retrata o primeiro carnaval pós-independência em Angola, denominado na altura como carnaval da vitória, desta vez celebrando a vitória sobre o inimigo durante o conflito armado, em oposição à festa popular de origem religiosa. Em Mopiópio (1987), Zézé Gamboa capta a vibração da música popular angolana em plena guerra civil no início dos anos 90, um retrato dinâmico e perspicaz num período crucial e desafiante no cenário cultural. Baseado no álbum de hip-hop do grupo Ngonguenha, o coletivo Fazuma (Pedro Coquenão + Luaty Beirão) realizou o documentário “É Dreda Ser Angolano” (2005–2007), retratando uma sociedade pós-guerra que ainda carrega os estilhaços das bombas no corpo, mas onde resiste e floresce um génio criativo destemido. Em “Luanda – A Fábrica da Música” (2009), Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves veem-se engolfados no fogo do ritmo kuduro, em pleno boom económico, registam um misto de caos e otimismo, que emerge da periferia da capital angolana. E por último, o documentário “Para Lá dos Meus Passos” (2018), onde a realizadora Kamy Lara, mergulha numa narrativa intimista e poética, conta a estória da vida dos bailarinos que compõem a Companhia de Dança Contemporânea.
Juntam-se a esta exposição a série de fotografias “Luandar” de Cassiano Bamba, imagens inéditas da movida juvenil kaluanda nas ruas, festas e eventos artísticos no início dos anos 90. Kiluanji Kia Henda apresenta duas séries, o conjunto de fotografias “Versus Carnaval” (2009), uma antítese da euforia e alegria coletiva do carnaval, realçando o aspecto contestatário da celebração; e a série “O Som é o Monumento” de 2022, uma colagem digital a partir de imagens de arquivo da destruição de um monumento colonial, recriadas em posters de conjuntos musicais fictícios. A exposição inclui também duas obras comissariadas de: Wyssolela Moreira – uma série de colagens digitais que homenageiam a comunidade Rastafari, um movimento que faz parte da movida cultural desde os primeiros anos após a independência, abordando os eventos de música reggae, que se tornaram vibrantes na vida nocturna luandense; Resem Verkron & Gegé M’bakudi – numa linguagem experimental, apresentam uma dupla projeção de vídeos vibrante e psicadélica, parte da sua pesquisa denominada kuduro visual, um manifesto onde o kuduro extravasa o universo musical, tornando-se num manifesto sobre como sobreviver a dura realidade na periferia da capital angolana.Estas obras serão apresentadas em diálogo com arquivo gentilmente cedido pela Valentim de Carvalho. Este arquivo histórico inclui gravações em estúdio da editora, realizadas em Luanda. Tendo funcionado no período de 1960 a 1975, acolheu nos seus estúdios mais de uma centena de músicos, muitos dos quais anteviam e disseminavam nas suas letras uma mensagem de libertação, contra o sistema colonial. O arquivo também se baseia em filmagens inéditas do FENACULT, o primeiro grande festival da cultura, realizado após a independência em Angola, que ocorreu em Luanda no ano 1989.
Após a inauguração, a exposição poderá ser visitada de segunda a sexta-feira, no período 14h00-20h00, e aos sábados, no período 12h00-18h00.A entrada é livre.(i) Fred Moten, In the Break: The Aesthetics of the Black Radical Tradition, Univ. of Minnesota Press, 2003.