Lado B: “FMM Sines: 25 Anos de um milagre cultural à beira-mar”

Hoje termina o FMM 2025. Há histórias que se escrevem com notas, vozes e tambores. Há legados que se medem não em cimento ou betão, mas em alma. O Festival, que este ano celebrou os seus 25 anos de existência, é uma dessas raras criações que transcendem o seu tempo, lugar e origem.

Sines, com as suas raízes profundas na história de Portugal, tornou-se palco global da diversidade musical graças à visão de um homem, Manuel Coelho, e à direção artística exímia de Carlos Seixas.

Fundado em 1999, o FMM nasceu de uma vontade política rara: A de colocar a cultura no centro da vida pública. Na altura, Manuel Coelho, então Presidente da Câmara Municipal de Sines, ousou sonhar com um festival fora do mainstream, aberto ao mundo, comprometido com a qualidade e diversidade artística, mas profundamente enraizado na identidade local. Num tempo em que quase ninguém falava de “democratização cultural”, ele fê-la acontecer, dando palco a vozes dos cinco continente numa cidade com pouco mais de 15 mil habitantes.

O impacto do FMM em Sines é hoje inegável. Mais do que um festival, é uma revolução tranquila. Durante mais de duas décadas, a cidade acolheu músicos de todas origens possíveis e imaginárias, criando um público com a sua própria identidade e rendido ao multiculturalismo que o encontro entre artes e mentalidades proporciona.

Alguns sineenses passaram a ver a sua terra com novos olhos, ( outros nem por isso, mas fica tudo bem na mesma), e isso, também, é transformação social. Ao longo destes 25 anos, Carlos Seixas, diretor artístico desde a primeira edição, tem sido o grande maestro desta sinfonia global. A sua curadoria é sensível, inteligente e coerente. Com discrição e profundidade, escolheu artistas não pelos nomes de cartaz, mas pelo que representam: culturas vivas, tradições reinventadas, vozes do presente. Sob a sua direção, o FMM não se rendeu às modas, manteve-se fiel ao seu espírito e tornou-se referência europeia no circuito dos festivais de “world music” , expressão que aqui ganha um novo e mais autêntico significado.

Homenagear o FMM é, pois, mais do que celebrar um evento. É reconhecer o poder da cultura para construir comunidades, gerar economia com ética, e projectar Portugal como país de pontes, e não muros. E é também, para prestar tributo a Manuel Coelho, cuja visão política, corajosa e esclarecida, criou as condições para que este milagre acontecesse.

Uma palavra de apreço aos trabalhadores do município pela dedicação e capacidade de trabalho durante o evento.

Sines, com o castelo virado para o Atlântico e os palcos voltados para o mundo, continua a ser, graças ao FMM, uma terra onde a música não conhece fronteiras, e onde a cultura não é luxo, mas direito e destino.

Autor: André Sousa.

Imagem: Daniel Neves / Máquina Voadora

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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