
Indo até à ermida junto ao mar, na posição elevada da cidade, encontra-se um dos lugares mais emblemáticos da cidade, não havendo por certo nenhum sineense que não conheça. ( Local que, ao que tudo indica terá em breve, as respectivas obras de requalificação). Ali está a igreja dedicada à padroeira local, venerada há séculos por pescadores, marinheiros e famílias locais.
Mas há uma pergunta que continua a gerar discussão entre locais e curiosidade entre visitantes. Afinal, o nome certo é Nossa Senhora das Salas ou Nossa Senhora das Salvas?
A resposta não é tão simples como parece. Segundo documentos antigos e registos oficiais, o nome mais antigo e historicamente correcto é Nossa Senhora das Salas. O nome terá origem nas antigas instalações de salga de peixe, conhecidas por “salgas”, que existiam junto ao antigo porto de Sines. Com o passar do tempo, e talvez por influência do uso popular, o termo terá evoluído para “salas”. A igreja foi construída junto a esses espaços de trabalho e rapidamente se tornou local de romaria e devoção para quem vivia do mar. Contudo, a partir do século dezoito, começou a ganhar força outra versão do nome: Nossa Senhora das Salvas. Há duas explicações populares para este nome.
Uma delas fala da princesa grega Dona Vetaça Lescaris, dama da corte da rainha Santa Isabel, que teria sido salva de uma tempestade ao largo de Sines. Em sinal de agradecimento, mandou erguer a capela. Daí, Nossa Senhora das Salvas, como referência direta à salvação.
A outra explicação está ligada às cerimónias náuticas. Conta-se que Vasco da Gama, figura maior de Sines, mandava dar salvas de canhão sempre que passava ao largo da costa em homenagem à padroeira da sua terra. A prática repetida das salvas poderá ter influenciado a mudança no nome, reforçada por séculos de tradição oral.
Apesar da diferença, hoje em dia ambas as versões são usadas. Os registos patrimoniais, como os do SIPA e da Direção Geral do Património Cultural, continuam a referir a igreja como Nossa Senhora das Salas. Mas nas festas, nas histórias contadas por gerações e até em muitos textos populares, o nome Nossa Senhora das Salvas continua vivo. Há quem use as duas formas como se fossem sinónimos e quem defenda que o nome verdadeiro é apenas um.
Todos os anos, no mês de agosto, as ruas e o mar enchem-se de fé e tradição com as festas em honra da padroeira. A procissão que leva a imagem até ao mar é acompanhada por dezenas de embarcações, uma homenagem que une o passado ao presente e mostra que, seja Salas ou Salvas, a devoção continua firme.
Mais do que um nome, Nossa Senhora representa a ligação profunda entre Sines e o mar. Uma figura que protege, inspira e faz parte da identidade de um povo habituado a enfrentar o vento, as ondas e os desafios da vida costeira. Independentemente do nome, e de ser consensual um ou o outro, o verdadeiro milagre é sem dúvida manter viva uma devoção que resiste ao tempo e às palavras.