Lado B: “Quando a indignação chega tarde”.

O debate autárquico de ontem em Sines foi tudo menos morno. Quente, aceso, ríspido, assim o qualificaram muitos que assistiram. Houve quem se mostrasse incomodado com a agressividade das trocas de palavras, como se o tom duro fosse um insulto maior do que qualquer problema concreto da cidade.

Mas não deixa de ser curioso: onde andou essa indignação quando Sines se degradava a olhos vistos? Onde estavam os protestos quando os espaços públicos se tornavam inóspitos, quando o comércio local definhava, quando a vida cultural se rarefaz? Porque razão o choque se levanta agora, perante meia dúzia de frases exaltadas, e não durante anos de erosão cívica e social? Ainda somos o mesmo povo da Greve Verde? Não!

Sines, mais do que qualquer palco político, é o espelho das escolhas que fomos fazendo (ou deixando de fazer). O debate pode ter sido duro, mas não foi mais violento do que o silêncio colectivo que acompanhou a estagnação da cidade. Preferimos a comodidade do mutismo à responsabilidade de exigir.

E agora, quando os candidatos finalmente se confrontam sem filtros, parece que é o estilo ( e não o conteúdo ), que causa maior desconforto. É verdade: debates ríspidos não são bonitos de ver. Mas a democracia não foi feita para ser um jantar de gala. É feita de choques, de confronto de ideias, de verdades ditas de frente, o que considero lamentável foi não ter mais tempo para outros temas como saúde, educação ou ambiente, por exemplo, mas o formato curto não deu tempo para explanar mais.

O que devia preocupar-nos não é o calor das palavras, mas sim a frieza com que fomos aceitando a degradação lenta de Sines. Talvez esteja na altura de percebermos que o verdadeiro problema não é o tom elevado do debate, mas a apatia que o antecedeu. Porque uma cidade não se perde em dois minutos de discussão acesa, perde-se em anos de silêncio cúmplice.

O que peço, enquanto cidadão, é que mais que ver os resquícios de um debate, que se vejam os programas de cada força política, principalmente quais as respectivas equipas, se são ou não capacitadas para executar um projecto de visão para o concelho. E que votem. Seja em quem for, que votem. A Democracia local é um pilar da sociedade que não devemos perder.

Autor: Luis Carvalho.

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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