
O Governo diz que o “Trabalho XXI” vem para modernizar o país. Para quem anda no cais todos os dias, isto não é modernização nenhuma: é um passo atrás. A estiva não é só um trabalho, é uma vida inteira de esforço, experiência e confiança entre camaradas. Mexer nas nossas leis é mexer na nossa vida.
Com este pacote, querem alongar contratos a termo e abrir ainda mais portas à precariedade. Nos portos já sabemos o que isso significa: gente a trabalhar sem segurança laboral, sem saber se ao final do contrato, há a renovação. Agora querem transformar isso em regra.
A ideia de permitir outsourcing depois de despedimentos ainda é pior. Uma empresa podia despedir toda a gente e, no dia seguinte, meter lá dentro uma equipa contratada de fora, muitas vezes sem formação, sem proteção e sem ligação ao colectivo. É rasgar anos de luta e destruir o modelo que mantinha alguma estabilidade nos portos.
Na estiva não há espaço para amadores. Aqui tudo exige treino, disciplina e equipas unidas. Substituir trabalhadores experientes por mão-de-obra temporária é pôr vidas em risco. E ainda por cima querem alargar “serviços mínimos” nas greves, tirando-nos a única arma que temos quando ninguém nos ouve. A proposta de permitir que um trabalhador abdique dos seus créditos laborais é outro perigo. No papel parece escolha; na realidade, é pressão. Quem depende do salário não tem liberdade para dizer “não”.
Até direitos ligados à vida familiar querem cortar ( como o luto gestacional ou regras mais duras para a licença do pai). Quem vive com turnos enormes e fins-de-semana perdidos sabe bem o que custa faltar a esses apoios. Afinal como querem que tenhamos um minimo de vida familiar? É o regresso ao século XIX. É tentar desmanchar uma classe inteira, transformar o trabalho portuário em mercadoria e os trabalhadores em peças descartáveis. Modernizar os portos não é tornar ninguém mais frágil. É dar formação, investir, garantir segurança e respeitar quem carrega o país às costas. Um porto só funciona bem quando quem o põe a andar tem estabilidade e não vive com medo do futuro. Nós, estivadores, sabemos disso melhor do que ninguém.
E há ainda uma coisa que custa engolir: esta história do Trabalho XXI não caiu do céu. Tem responsáveis bem claros. A direita, que tanto fala em “modernização”, encontrou aqui a desculpa perfeita para empurrar os trabalhadores de volta para a precariedade da Troika. Vestem as mudanças com palavras bonitas, mas o objectivo é o de sempre: mão-de-obra barata, frágil e fácil de substituir. Para eles, o porto é negócio; nós somos números.
Mas a esquerda também não fica limpa nesta fotografia. Andaram distraídos, ocupados com guerras internas, agendas e discursos para o “soundbite” e “likes”, enquanto este pacote avançava devagarinho. Quando deviam estar a ouvir quem está no cais, a ouvir quem trabalha de botas pesadas no chão, estavam entretidos a discutir tudo menos o essencial: Os direitos concretos de quem põe a economia a funcionar. Simplesmente dormiram ao volante.
E os sindicatos? Os sindicatos do sector? O silêncio chega a ser duramente ensurdecedor. Era nestes momentos que deviam aparecer em público com força, denunciar ponto por ponto o ataque à estiva, mobilizar os trabalhadores e avisar o país do que está em jogo. Em vez disso, olhamos à volta e não se vê uma posição firme, uma resposta à altura, nem sequer uma declaração clara sobre o impacto deste pacote. Quem cala, consente, e isso, neste sector, é meio caminho para nos levarem tudo o pouco que ainda temos.
O Trabalho XXI não é só um mau pacote: é um teste. Testa a coragem dos partidos e a espinha dorsal dos sindicatos. A direita falhou porque escolheu o lado patronal. A esquerda falhou porque não esteve lá quando era preciso. E os sindicatos falharam porque esqueceram quem representam.
É o sector esquecido, mas tão fundamental para o circular da economia nacional.
Autor: R.S.
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