Lado B: “Sines e o impacto de emprego no maior Data Center da Europa.”

É fácil deslumbrarmo-nos com a escala monumental do projecto de Sines: 1,2 gigawatts de capacidade, investimentos que somados ultrapassam largos milhares de milhões e a promessa de transformar a costa alentejana num dos maiores portos de dados do mundo. Mas por detrás dos números grandiosos, ergue-se uma questão que interessa verdadeiramente ao País, e em particular à região: quantos empregos directos criará este gigante digital quando estiver plenamente operacional?

A ironia dos mega data centers é que, quanto maiores são os investimentos, menor tende a ser a intensidade de mão-de-obra. Estas infraestruturas são templos de alta tecnologia, de engenharia de precisão e de automatização extrema. As máquinas fazem quase tudo sozinhas, supervisionadas por equipas altamente especializadas mas reduzidas. Isto não significa falta de impacto económico, longe disso, mas significa que não estamos perante uma fábrica tradicional, com milhares de trabalhadores, linhas de montagem e turnos densos.

Para o caso de Sines, o exercício de projecção é possível e, diria, até bastante sólido. Olhando para centros equivalentes da Google, da Meta ou da Microsoft, e aplicando razões internacionais de trabalhadores por megawatt de capacidade de TI, chegamos rapidamente a uma ordem de grandeza muito clara. Considerando a escala singular do campus português, o grau extremo de automação previsto, mas também a complexidade acrescida do arrefecimento por água do mar, da segurança perimetral e da multiplicidade de clientes hyperscale que ali se instalarão, a estimativa mais realista situa-se algures entre 700 e 1 000 empregos directos.

Diria, com alguma confiança, que o número mais provável rondará os 800 a 900 trabalhadores permanentes quando o campus estiver totalmente desenvolvido. Trata-se de um valor elevado? Sim. Transformador para a região? Sem dúvida. Mas não devemos cair na tentação de imaginar uma “nova Autoeuropa digital”, com milhares de postos de trabalho directos numa mesma infraestrutura. Não é assim que esta indústria funciona. O impacto dá-se sobretudo através de salários qualificados, de fornecedores especializados, de serviços associados e do efeito de ancoragem sobre outras actividades tecnológicas, muito mais do que através do emprego directo em massa.

Se alargarmos a análise a prestadores permanentes, vigilância, manutenção, engenharia contratada, limpeza industrial, o universo sobe facilmente acima das 1 200 ou 1 500 pessoas envolvidas de forma contínua no ecossistema. Mas o essencial permanece: um mega data center emprega sobretudo capital e energia, não tanto trabalhadores.

A verdadeira oportunidade de Sines não reside apenas no número de empregos directos, mas sim na capacidade de Portugal construir em torno deste projecto uma estratégia de longo prazo: Formação técnica especializada, clusters de empresas digitais, inovação em energia renovável, soluções de arrefecimento sustentáveis, engenharia aplicada ao mundo dos dados. O emprego directo é importante, mas o emprego indirecto e o potencial de transformação económica são, esses sim, tanto interessantes, como estruturantes.

Sines não será uma fábrica de milhares de operários como muito imaginam ser, mas poderá ser, se o País souber aproveitar, uma “fábrica” de futuro. E isso vale, talvez, ainda mais.

Autor: Eng. João Santana.

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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