Gás russo em Sines: Queda ou continuidade?

O terminal de gás natural liquefeito (GNL) de Sines, um eixo vital na segurança energética de Portugal, encontra-se hoje perante um dilema ético e económico. Embora a sua matriz de abastecimento tenha atingido níveis notáveis de diversificação, a persistência de gás de origem russa no seu porto levanta questões sobre o financiamento indirecto da máquina de guerra de Moscovo.

A verdade é que a presença do gás de Putin em território luso é, hoje, marginal. Conforme confirmado por Pedro do Ó Ramos, presidente da Autoridade Portuária de Sines e do Algarve, o fornecimento de origem russa representa actualmente apenas 5% do total do GNL que é descarregado. Este facto é, de facto, um testemunho da reorientação estratégica de Portugal, que busca a sua segurança em parceiros como a Nigéria e os Estados Unidos da América (EUA).

Contudo, a notícia do regresso do gás russo, após um hiato de mais de seis meses, reavivou o debate. A explicação oficial para esse fluxo residual passa pelos contratos de longo prazo estabelecidos por comercializadores de gás, muitas vezes de origem estrangeira, que utilizam Sines para aceder ao mercado ibérico.

É, no entanto, inelutável a implicação geopolítica: Cada transacção, por mais pequena que seja a sua quota na balança energética nacional, contribue para sustentar a economia do Kremlin. Ou seja, o dinheiro pago por este gás, mesmo que residual e transitório, acaba por financiar, indirectamente, a máquina de guerra russa no conflito na Ucrânia.

Assim, a situação em Sines configura-se como um espelho da Europa: A necessidade de segurança energética coexiste com a urgência de cortar tôdas as fontes de financiamento a um regime em guerra. O desafio estratégico de Portugal reside agora em conciliar a indispensável estabilidade do abastecimento com a moralidade da sua origem, procurando acelerar os passos para a completa emancipação face a qualquer recurso energético que beneficie o agressor.

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