Lado B: Hidrogénio em Sines: da promessa de “hub europeu” à realidade dos adiamentos e desistências.

Sines foi, durante anos, apresentado como o grande palco português para o hidrogénio verde: um “hub” capaz de atrair consórcios internacionais, criar emprego, exportar energia limpa e reposicionar o País no mapa industrial europeu. Houve anúncios ambiciosos, apresentações com números gigantes e nomes sonantes à mesa, como o Green Flamingo e outros projectos que, no papel, pareciam inevitáveis.

É difícil fugir a uma conclusão incómoda: uma parte relevante da agenda do hidrogénio em Sines ficou presa entre o marketing político, as fragilidades do enquadramento regulatório e as limitações físicas do sistema. O caso mais simbólico deste desfasamento foi o H2Sines.Rdam, que pretendia produzir hidrogénio em Sines para exportação, e acabou por ser cancelado (com referências públicas a falta de viabilidade económica e ausência de regras claras). Quando um consórcio com músculo industrial e experiência internacional desiste, não é apenas “um projecto que caiu”: é um sinal de que o modelo estava mal amarrado, sobretudo naquilo que decide o sucesso de qualquer investimento: quem compra, a que preço, com que garantias, e com que previsibilidade.A isto somam-se adiamentos sucessivos noutros dossiês.

Depois existe o problema que pouca gente gosta de dizer em voz alta: o hidrogénio verde continua a ser, em muitos casos, um produto caro, e o mercado ainda está a ser construído. Sem contratos de compra firmes (offtake), sem sinais regulatórios estáveis e sem mecanismos de apoio claros e duradouros, muitos projectos tornam-se reféns de expectativas. E expectativas não pagam CAPEX nem OPEX. É por isso que, enquanto alguns anúncios evaporaram e outros ficaram suspensos indefinidamente, poucos foram os que realmente avançaram com um caminho consistente até à execução. O impacto local desta “montanha-russa” também não é neutro. Cada grande anúncio cria uma onda de expectativa: empregos prometidos, formação, serviços, habitação, novas empresas, uma ideia de futuro. Quando depois surgem cancelamentos, recuos e silêncios prolongados, a comunidade não fica apenas desiludida, fica também desconfiada. A desconfiança é tóxica para um território que precisa de planeamento sério, previsibilidade e confiança entre investidores, Estado e população.

A lição destes anos é clara: o hidrogénio não se constrói com brochuras nem com comunicados. Constrói-se com rede eléctrica, licenças em tempo útil, regras estáveis, contratos de compra, financiamento realista e execução disciplinada. Se o País quer mesmo que Sines seja uma referência, então tem de trocar a política do anúncio pela política do detalhe, aquela que resolve gargalos, fecha pontas soltas e transforma intenções em activos operacionais. Até lá, o hidrogénio em Sines continuará a ser, demasiadas vezes, a história de um futuro sempre adiado.

No meio de tantos anúncios que ficaram pelo caminho, há pelo menos alguns “sobreviventes” que, por terem sinais mais concretos de execução, continuam a sustentar a ideia de que o hidrogénio em Sines não morreu: o projecto de 100 MW da Galp, na refinaria, com investimento assumido e calendário apontado para arranque operacional; o electrolisador da Repsol, de menor escala mas com avanço confirmado no complexo industrial; e, num patamar diferente, o projecto da MadoquaPower2X, que mantém o trilho do licenciamento e do enquadramento ambiental para hidrogénio e derivados (como a amónia), ainda dependente de decisões finais e de condições de rede e mercado, mas sem ter desaparecido do mapa.

Autor: Gonçalo Silva – Analista de Mercados.

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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