Quanto tempo irá demorar para construir os 3000 fogos mencionados por Álvaro Beijinha?

No seguimento da entrevista dada por Álvaro Beijinha ao Expresso, em que o Presidente da Câmara de Sines afirmou que são precisos €1000 milhões para construir cerca de 3000 fogos no concelho, importa colocar a questão que realmente interessa: Quanto tempo demoraria, na prática, concretizar uma operação desta dimensão?

Se se olhar para a realidade da construção em Portugal sem optimismos artificiais, a resposta mais dura é esta: 3000 fogos dificilmente estarão concluídos em menos de 6 a 8 anos e, num cenário mais pesado, com entraves administrativos, falta de mão-de-obra, pressão sobre os custos e execução por fases, esse prazo pode facilmente aproximar-se dos 8 a 10 anos.

O primeiro ponto a perceber é simples. Construir 3000 fogos não significa levantar meia dúzia de prédios e entregar as chaves. Significa preparar solos, urbanizar terrenos, abrir arruamentos, garantir estacionamento, instalar redes de água, saneamento, electricidade, telecomunicações e assegurar toda a envolvente necessária para tornar esses fogos habitáveis. Ou seja, não se trata de uma obra única, mas de várias operações urbanísticas complexas, provavelmente repartidas por diferentes fases e por vários empreiteiros.

Depois há um obstáculo que já é conhecido em todo o país: a capacidade real do sector da construção. Portugal continua a enfrentar falta de mão-de-obra, pressão sobre os custos dos materiais e dificuldades em responder rapidamente a projectos de grande escala. Na prática, isso quer dizer que, mesmo quando existe vontade política e financiamento, a execução no terreno pode não acompanhar o calendário desejado. E quando os recursos são limitados, os grandes anúncios tornam-se muitas vezes maiores do que a capacidade de concretização.A isto soma-se a máquina burocrática. Um projecto desta dimensão não avança apenas com intenção política. Exige estudos, projectos, licenciamentos, pareceres, concursos, adjudicações, infraestruturas e uma articulação permanente entre várias entidades. Basta um concurso falhar, um processo atrasar-se ou uma empreitada derrapar para o calendário começar a deslizar. E num projecto desta escala, esses atrasos não seriam uma surpresa. Seriam quase uma inevitabilidade.Por isso, o cenário mais negro, mas ainda assim perfeitamente plausível, é este: Anuncia-se hoje, prepara-se durante anos, constrói-se por etapas e, passados quatro ou cinco anos, apenas uma parte dos fogos estará efectivamente concluída.

A totalidade dos 3000 fogos poderá arrastar-se por quase uma década. Dito de forma directa, 3000 fogos em Sines não seriam uma resposta rápida à crise da habitação. Seriam, no melhor dos casos, um projecto de longa duração. E no pior, uma promessa politicamente forte, mas demasiado pesada para produzir resultados no tempo que a população precisa.

Foto: Expresso.

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