Lado B: “Quando morre o Sindicalismo?”

Morre quando deixa de ser arma e aceita ser ornamento. Morre quando troca a luta pela encenação,a firmeza pela vassalagem, a coragem pelo conforto dos corredores e das cadeiras.

Morre quando já não defende os trabalhadores e passa a gerir a sua resignação. Morre quando se cala perante abusos, engole injustiças, baixa a cabeça e chama responsabilidade àquilo que não passa de imensa e completa submissão.

Morre quando adopta a voz da empresa, repete a cartilha do poder e tenta convencer os trabalhadores de que perder direitos é sinal de maturidade. Morre quando assina documentos que não beneficiam quem trabalha e os apresenta como grandes vitórias. Quando vende derrotas como conquistas. Quando embrulha cedências em comunicados pomposos e exige gratidão a quem ficou na mesma ou ficou pior.

Morre quando se senta com os de cima com mais facilidade do que olha nos olhos de quem representa. Morre quando os trabalhadores começam a sair, fartos, exaustos, descrentes,não porque desistiram da luta, mas porque deixaram de ver ali coragem, coluna e verdade. Morre quando esquece as lutas de outrora, quando cospe na memória dos que enfrentaram o medo,a repressão, a perseguição e a dureza para arrancar direitos a ferros. Morre quando não respeita a sua história e trai a razão pela qual nasceu.

E nesse exacto momento,já não é sindicalismo nenhum. É farsa. É aparelho. É decoração institucional. É um cadáver de pé, com a boca cheia de palavras gastas e as mãos vazias de coragem.

Porque um sindicalismo que não incomoda o poder, não serve os trabalhadores. Serve apenas para lhes pedir silêncio enquanto lhes roubam tudo.

Como dizia Zeca Afonso: “Eles comem tudo, eles comem tudo. Eles comem tudo e não deixam nada.”

Autor: Nuno F.

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos seus leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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