Lado B: “Um terminal de cruzeiros em Sines: Caro, duvidoso e fora de escala”

A ideia de construir um terminal de cruzeiros em Sines pode soar apelativa à primeira vista, mas levanta sérias reservas quando analisada com frieza. Mais do que um projecto de futuro, arrisca ser uma obra cara, desajustada da vocação do porto e de utilidade duvidosa para o concelho.

O Porto de Sines afirma-se sobretudo como grande infra-estrutura de carga, energia, indústria e logística, sendo essa a sua função central no panorama portuário nacional. Não é por acaso que tem crescido e consolidado o seu papel como plataforma estratégica nas cadeias internacionais de mercadorias. Tentar encaixar nele um terminal de cruzeiros como se essa fosse uma evolução natural pode revelar-se um erro de leitura sobre aquilo que Sines é realmente e sobre aquilo em que deve continuar a apostar.

Além disso, a própria APS é responsável não apenas pelo Porto de Sines, mas também pelos portos comerciais do Algarve, incluindo Portimão. Ou seja, a experiência ligada a esta realidade já está, em termos institucionais, dentro da mesma estrutura de gestão. E isso só reforça a ideia de que não basta copiar modelos ou acenar com o argumento dos cruzeiros para justificar uma nova infra-estrutura em Sines. As realidades são diferentes, os contextos são diferentes e as prioridades também o devem ser.

E há um ponto que não pode ser ignorado: Sines não é Lisboa, nem é o Porto. Não tem a mesma escala urbana, a mesma densidade turística, o mesmo fluxo consolidado de visitantes, nem o mesmo posicionamento histórico no mercado dos cruzeiros. Querer competir nesse plano, ou imitar esse tipo de ambição, seria confundir desejo com realidade. Sines tem valor próprio, mas esse valor assenta noutras bases. Construir um terminal de cruzeiros não é levantar um edifício bonito junto ao mar. É abrir a porta a custos avultados de construção, adaptação de cais, acessibilidades, áreas de recepção de passageiros, controlo de segurança, apoio logístico, estacionamento, promoção e, em muitos casos, dragagens e manutenção contínua. Tudo isto representa um esforço financeiro pesado, que facilmente pode atingir dezenas de milhões de euros, sem garantia de retorno proporcional.

A pergunta central é simples: para quê? Quantos navios de cruzeiro justificariam, de forma regular e sustentada, um investimento desta dimensão em Sines? Que impacto económico concreto teria? E, acima de tudo, que outras necessidades ficariam para trás enquanto se canalizavam recursos para um projecto desta natureza? Sines não vive do turismo de cruzeiros, nem tem nessa área a sua força principal. Vive de porto comercial, de indústria, de energia, de logística e de investimento empresarial. É aí que está a sua vocação, a sua escala e a sua vantagem competitiva. Apostar num terminal de cruzeiros sem massa crítica consolidada seria correr o risco de criar um equipamento caro, subutilizado e difícil de justificar perante prioridades muito mais evidentes. Num concelho onde continuam a existir desafios concretos ao nível da habitação, da mobilidade, da qualificação urbana e até do reforço das infraestruturas ligadas à actividade económica principal, defender uma obra desta dimensão parece mais um capricho de imagem do que uma necessidade estratégica. Nem tudo o que parece moderno é útil. E nem tudo o que dá boa fotografia no dia da inauguração serve verdadeiramente o interesse público.

Sines precisa de investimentos coerentes com a sua identidade e com o seu papel no país. Precisa de reforçar aquilo em que já é forte e não de dispersar recursos em projectos de retorno incerto. Um terminal de cruzeiros pode parecer, para alguns, um símbolo de ambição. Mas, olhando para os custos envolvidos e para a realidade do território, parece sobretudo uma ideia cara para um porto que tem outras prioridades.

Autor: Carlos Sousa

Imagem meramente representativa.

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos seus leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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