Lado B: ” A recriação do Gabinete da Área de Sines?”.

O presidente do Porto de Sines, Pedro do Ó Ramos, lançou a ideia de que Portugal precisa de uma “entidade com músculo” para responder ao gigantesco volume de investimento previsto para Sines, mais de 20 mil milhões de euros destinados a projetos energéticos, industriais e logísticos. A proposta parece pragmática, mas levanta um fantasma do passado: o Gabinete da Área de Sines (GAS), uma estrutura criada nos anos 70 que deixou uma herança pesada na história da planificação territorial portuguesa.

O GAS nasceu em 1971, em plena ditadura, como o braço tecnocrático do regime para transformar Sines num polo industrial de dimensão internacional. À sombra da promessa de desenvolvimento e progresso, o Estado criou um organismo com poderes quase absolutos, capaz de impor decisões urbanísticas, expropriar terrenos e redesenhar o território sem diálogo com as populações locais. O objetivo era simples: erguer, a qualquer custo, o sonho industrial português. Refinarias, petroquímicas, porto de águas profundas, tudo decidido em gabinetes distantes, com planeamentos traçados a régua e esquadro, e executados com um autoritarismo que hoje seria impensável.

O resultado foi um território transformado à força, uma comunidade deslocada e um ambiente social e ecológico profundamente alterado. O GAS funcionava como um Estado dentro do Estado, um enclave de tecnocratas e engenheiros que respondiam mais a Lisboa do que a Sines. O progresso chegava em nome do interesse nacional, mas as populações pagavam o preço. As promessas de prosperidade e qualidade de vida para os trabalhadores e moradores foram, em muitos casos, substituídas por bairros improvisados, falta de serviços públicos e uma paisagem industrial que ainda marca o concelho.

É por isso que, quando Pedro do Ó Ramos fala na necessidade de uma nova entidade “com músculo”, a memória do antigo Gabinete ressoa com desconforto. Um organismo com “músculo” pode facilmente transformar-se numa estrutura sem rosto e sem escrutínio, que decide de cima para baixo, reproduzindo a velha lógica centralizadora do Estado: planeia-se em Lisboa, executa-se em Sines, e só depois se pergunta aos que lá vivem o que acham.

Sines, hoje, é outra. É uma cidade com identidade própria, com autarquias eleitas e cidadãos que aprenderam a desconfiar das promessas de crescimento fácil. O novo ciclo de investimento energético e logístico é, de facto, uma oportunidade histórica, mas é também um teste à capacidade do país em crescer de forma democrática, sustentável e equilibrada, sem repetir o erro de entregar o território a estruturas “de excepção” com poder ilimitado. O fantasma do GAS paira, portanto, como um aviso: o desenvolvimento não se faz contra as pessoas nem à custa do território. O progresso precisa de músculo, sim, mas também de cérebro, coração e memória.

Autor: Carlos Santos

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

Deixe um comentário