Lado B: “Sines cresce para quem?”

Sines vive um dos momentos mais falados da sua história recente. Quase todos os meses há novos anúncios, novos investimentos, novas promessas e novas fotografias oficiais. Seja no Porto, indústria, energia, hidrogénio, dados, logística, transição energética. No papel, Sines é estratégico. Para o país, para a Europa e até de certa forma, para o mundo.

Mas falta fazer uma pergunta simples: Estratégico para quem?

Porque uma coisa é Sines aparecer nos discursos como motor da economia nacional. Outra coisa é entender se esse crescimento está, de facto, a melhorar a vida de quem cá mora, trabalha, paga casa, cria filhos, espera por uma consulta, apanha trânsito ou tenta simplesmente continuar a viver no concelho onde nasceu. Durante anos, Sines foi apresentado como um território de futuro. E é. Não sejamos cínicos. Seria injusto negar a importância dos investimentos, do porto, da indústria e das novas oportunidades. O problema é quando o futuro chega em forma de milhões, mas o presente dos habitantes continua apertado. A habitação está mais difícil. Os preços subiram. A oferta é curta. Muitos jovens olham para Sines e perguntam-se se algum dia conseguirão viver aqui sem depender dos pais ou sem sair para outro concelho. Ao mesmo tempo, chegam projectos que prometem emprego, mas nem sempre é claro quantos desses empregos ficam verdadeiramente para a população local, e se serão pagos salários justos ou adequados para sobreviver num concelho de custo “premium”.

Também há a pressão sobre os serviços. Mais actividade económica significa mais movimento, mais pessoas, mais necessidades. Mas as respostas públicas acompanham esse ritmo? A saúde acompanha? As escolas acompanham? A mobilidade acompanha? O espaço urbano acompanha? E há ainda a questão ambiental, que em Sines nunca pode ser tratada como detalhe. Um concelho que carrega há décadas o peso da indústria tem o direito de exigir mais do que discursos bonitos sobre sustentabilidade. Tem o direito de exigir garantias, fiscalização, compensações e respeito pela qualidade de vida. Os sucessivos governos gostam dos investimentos, mas não gostam de investir no território e das pessoas de cá.

O país olha para Sines como uma plataforma estratégica. Mas Sines não é apenas uma plataforma. É uma cidade. É uma comunidade. Tem bairros, famílias, clubes, associações, trabalhadores, reformados, jovens e gente que não vive dentro de comunicados da imprensa nacional. O desenvolvimento não pode ser medido apenas em investimento anunciado. Tem de ser medido na vida concreta das pessoas. Se há mais riqueza, deve haver melhores condições. Se há mais pressão, deve haver mais respostas. Se há mais projectos, deve haver mais transparência.

Se Sines serve o país, o país também tem de servir Sines.A grande questão não é ser contra o crescimento. Sines precisa de crescer. O que não pode é crescer contra os seus próprios moradores, ou passar por cima deles como se fossem figurantes numa história escrita por outros. Sines pode e deve ser estratégico. Mas antes de ser estratégico para Portugal, para empresas ou para investidores, tem de continuar a ser uma terra possível para quem cá vive. Porque desenvolvimento que expulsa, aperta ou ignora a população local não é desenvolvimento completo. É apenas crescimento com uma parte da factura escondida.

Autor: P.F

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

Deixe um comentário