Lado B: Falam sempre em mudar quem trabalha. E quem manda?

Portugal discute outra vez o trabalho como se o problema estivesse sempre do mesmo lado. Fala-se em mexer na lei laboral, em flexibilizar horários, em rever regras, em adaptar o país aos novos tempos. Mas raramente se tem coragem para dizer o óbvio: Talvez o país não precise apenas de mudar regras para quem trabalha. Talvez precise também de olhar com seriedade para quem manda.

Porque há uma parte da economia portuguesa que continua presa a uma ideia antiga, a de que competitividade se faz com salários baixos, horários longos, vínculos frágeis e trabalhadores sempre disponíveis. Como se o futuro pudesse ser construído à custa do cansaço de quem trabalha.

Em Sines, esta discussão não é abstracta. Aqui há turnos, indústria, porto, logística, serviços, obras, empresas, subcontratação e muita gente a fazer o país mexer quando a maioria já está em casa. Há trabalhadores que garantem operações críticas, que vivem com horários trocados, fins-de-semana perdidos, noites em claro e pressão constante. E, mesmo assim, muitas vezes continuam a ouvir que têm de ser mais produtivos.

A pergunta devia ser outra: e as empresas? Têm sido suficientemente produtivas? Têm investido em formação? Têm organizado melhor o trabalho? Têm valorizado quem segura a operação todos os dias? Têm distribuído melhor os ganhos quando há lucros? É fácil pedir sacrifícios ao trabalhador. Difícil é exigir gestão competente a quem manda.Uma verdadeira reforma do trabalho devia começar também por aí: salários mais justos, respeito pelos horários, combate ao abuso da precariedade, valorização da experiência, melhores condições de segurança e uma cultura empresarial menos assente no medo e mais assente no compromisso.

Portugal não perde jovens apenas porque lá fora se paga mais. Perde jovens porque muitos percebem cedo que, por cá, trabalhar bem nem sempre chega. É preciso aceitar tudo, calar muito e agradecer pouco. Durante anos, demasiadas empresas habituaram-se a ter trabalhadores qualificados a preço de saldo. Habituaram-se a tratar a disponibilidade como obrigação. Habituaram-se a confundir flexibilidade com submissão. Mas um país não se moderniza empurrando sempre o mesmo peso para cima dos mesmos ombros. Se há empresas que cumprem, pagam bem, respeitam pessoas e investem no futuro, essas deviam ser o exemplo.

Mas também é preciso dizer que há outras que vivem confortavelmente num modelo pobre: baixos salários, pouca organização, chefias fracas e muita conversa sobre mérito. O mérito não pode ser uma palavra usada apenas para exigir mais ao trabalhador. Também tem de servir para avaliar patrões, gestores e empresas.Num território como Sines, onde se fala tanto em investimento, transição energética, dados, porto, indústria e futuro, esta discussão é ainda mais importante.

O desenvolvimento não pode ser somente chavões. Tem de ser também vida digna para quem trabalha.Porque crescimento sem justiça laboral é apenas estatística bonita.Portugal precisa de empresas fortes. Mas empresas fortes não se constroem esmagando trabalhadores. Constroem-se com organização, tecnologia, respeito, salários decentes e liderança competente.Talvez esteja na altura de mudar a pergunta.

Em vez de perguntar sempre o que é que os trabalhadores ainda têm de perder para a economia crescer, talvez devêssemos perguntar o que é que alguns patrões ainda têm de aprender para Portugal deixar de ser um país de baixos salários. Isso sim, seria uma reforma estrutural.

Autor: P.F

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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