Portugal trabalha muito, mas continua a pagar pouco.

Portugal continua a surgir entre os países da União Europeia onde se trabalha mais horas por semana, ao mesmo tempo que os salários reais não acompanharam, durante vários anos, a evolução da produtividade.

De acordo com dados divulgados, Portugal é o quinto país da União Europeia com maior carga horária semanal, com uma média de 39,7 horas. O valor fica acima da média europeia, situada nas 37 horas, e apenas atrás da Grécia, Polónia, Roménia e Bulgária.A comparação ganha maior peso quando cruzada com a evolução da produtividade e dos salários reais.

Entre 2000 e 2024, o PIB real por trabalhador cresceu de forma mais consistente do que o salário real por trabalhador, mostrando que a riqueza produzida aumentou mais rapidamente do que a remuneração efectiva de quem trabalha. Este desfasamento ajuda a explicar uma das principais tensões do mercado laboral português: o país continua a exigir muitas horas de trabalho, mas nem sempre transforma esse esforço em melhores salários, maior poder de compra ou melhores condições de vida.

Outro dado relevante é a cobertura da contratação colectiva. Portugal surge entre os países europeus com níveis elevados de cobertura, próxima dos 89% dos trabalhadores, ao lado de países como França, Bélgica, Áustria, Finlândia, Suécia, Países Baixos, Dinamarca e Itália. Apesar disso, a existência de contratação colectiva não tem sido suficiente, por si só, para impedir a perda de poder de compra em determinados períodos ou para aproximar os salários portugueses dos níveis praticados em economias europeias com menor carga horária semanal.O tema toca directamente milhares de trabalhadores portugueses, incluindo os que vivem em regiões industriais e portuárias como Sines, onde os horários por turnos, a pressão operacional e a exigência física continuam a marcar muitas profissões.

Os números mostram uma realidade difícil de ignorar: Portugal trabalha muito, mas continua a pagar pouco face ao esforço exigido e à produtividade gerada.

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