
O Dia do Pescador devia ser, em Sines, uma data de orgulho colectivo. Um momento para celebrar quem fez do mar trabalho, sustento, cultura e identidade. A imagem do pescador é indissociável da essência que caracteriza Sines.
Mas a pergunta impõe-se: Estamos a comemorar a pesca ou a prestar homenagem a uma actividade que deixámos desaparecer aos poucos? Em Sines, o mar nunca foi apenas paisagem. Antes dos grandes projectos industriais, dos terminais, das estratégias económicas e dos discursos sobre desenvolvimento, já havia pescadores a dar forma a esta terra. A pesca criou famílias, histórias, linguagem própria e uma relação com o oceano que nenhuma conferência sobre “economia azul” consegue substituir.
Hoje, essa realidade está cada vez mais frágil. A pesca artesanal, em particular, resiste como pode. Continua viva em algumas embarcações, em alguns rostos, em algum saber antigo. Mas está cercada por custos, burocracias, limitações sucessivas, falta de renovação geracional e pouca capacidade para competir num mercado cada vez mais difícil. Durante anos, os sinais estiveram à vista. Bastava ouvir quem anda no mar. Bastava olhar para as dificuldades dos pescadores, para a incerteza dos rendimentos e para a falta de jovens dispostos a entrar numa profissão dura, arriscada e com futuro cada vez menos garantido. O problema é que se fala muito do mar, mas nem sempre se defende quem vive dele.
Os pescadores são lembrados nas cerimónias, nas fotografias oficiais e nos discursos de ocasião. Mas uma comunidade não se protege apenas com palavras bonitas. Protege-se com condições de trabalho, valorização do pescado, políticas sérias e respeito pelo conhecimento de quem conhece o mar por dentro. A pesca artesanal não é folclore. É trabalho real, economia local, memória colectiva e identidade. É também uma actividade mais próxima dos ciclos do mar e, muitas vezes, mais equilibrada na relação com os recursos. Quando uma embarcação deixa de sair, perde-se mais do que rendimento. Perde-se técnica, linguagem, memória, entreajuda e uma ligação antiga entre a comunidade e o oceano. Sines vive esta contradição de forma evidente. É uma cidade profundamente ligada ao mar, mas muitos homens do mar sentem que ficaram à margem das prioridades. O porto cresce, os investimentos avançam, fala-se de futuro, energia, logística e indústria. Tudo isso importa. Mas não pode apagar quem já cá estava muito antes desse crescimento.
Por isso, o Dia do Pescador não devia ser apenas uma homenagem. Devia ser também um alerta. Uma data para perguntar o que está realmente a ser feito para que a pesca continue a existir, não apenas como memória bonita, mas como actividade com presente e futuro. Se há vontade para defender sectores considerados estratégicos, também tem de haver vontade para proteger a pesca artesanal. Não por romantismo, mas por justiça, cultura e inteligência. Um país que trata o mar como oportunidade não pode abandonar quem sempre viveu dele.
Em Sines, o Dia do Pescador ainda pode ser uma celebração. Mas para isso não pode transformar-se numa despedida disfarçada. Porque quando desaparecem os pescadores, não desaparece apenas uma profissão. Desaparece uma parte da alma de uma terra.
Autor: P.F
Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.