Lado B: “Sines: Lisboa fica com os anúncios, a região fica com os problemas.

Há muitos anos que Sines é apresentado como uma espécie de mina de ouro para o país. Quando é preciso falar de investimento, crescimento económico, transição energética, porto, indústria, dados ou exportações, Sines aparece logo no mapa. É estratégico. É decisivo. É o futuro.O problema é que esse futuro, tantas vezes anunciado em Lisboa, nem sempre chega a quem vive cá.Nos gabinetes do Governo, os grandes investimentos em Sines são motivo de celebração. Fazem-se discursos, tiram-se fotografias, anunciam-se milhões e milhares de postos de trabalho. Tudo parece correr bem. Mas basta sair da sala de reuniões e olhar para a realidade da região para perceber que há uma enorme distância entre o entusiasmo oficial e a vida das pessoas.A habitação é o exemplo mais evidente. As rendas subiram, comprar casa tornou-se cada vez mais difícil e muitos jovens e trabalhadores são empurrados para fora do concelho. Há quem trabalhe em Sines, mas não consiga viver em Sines. Há famílias que sempre aqui estiveram e que agora sentem que a sua terra se está a tornar inacessível. Isto não é desenvolvimento. É pressão sem resposta.E não vale a pena fingir que este problema apareceu por acaso. Se o Estado central sabe há anos que Sines vai receber investimentos de grande dimensão, então também devia saber que seriam necessárias casas, transportes, escolas, médicos, segurança e infraestruturas. O que não se pode é anunciar crescimento com uma mão e deixar os impactos para a população resolver com a outra.Nas acessibilidades, a história repete-se. Sines é tratado como essencial para a economia nacional, mas continua sem uma resposta digna na ferrovia de passageiros e com ligações que não acompanham a importância que dizem que a região tem. Para levar mercadorias, Sines interessa. Para garantir mobilidade às pessoas, parece interessar muito menos.Também os serviços públicos continuam aquém do que seria exigível. Mais investimento significa mais trabalhadores, mais procura, mais pressão sobre o território. Mas onde está o reforço sério na saúde? Onde está o planeamento para as escolas? Onde está a resposta nos transportes? Onde está a estratégia para evitar que a região cresça de forma desordenada e injusta?O Governo central não pode continuar a tratar Sines como uma montra económica e, ao mesmo tempo, abandonar a região nos problemas do dia-a-dia. Não chega dizer que Sines é importante para Portugal. É preciso agir como se fosse.E agir significa investir nas pessoas, não apenas nas empresas. Significa garantir que quem cá vive não é esmagado pelo crescimento. Significa perceber que uma região não pode ser usada apenas para produzir riqueza, energia, impostos e estatísticas bonitas.As empresas locais também sabem bem o que isto significa. Muitos grandes projectos chegam já decididos, fechados e organizados fora da região. Os investimentos instalam-se no território, mas as oportunidades nem sempre ficam cá. Sines recebe o impacto, mas nem sempre recebe o retorno.Isto não é uma crítica ao investimento. Sines precisa de investimento. Precisa de emprego, de actividade económica e de futuro. Mas precisa também de respeito. E respeitar Sines é perceber que o crescimento tem de servir a população, não apenas os relatórios do Governo.O país não pode continuar a aplaudir Sines nos discursos e esquecer Sines nas decisões.Se há dinheiro, ambição e vontade para atrair grandes projectos, também tem de haver coragem política para resolver a habitação, melhorar acessibilidades, reforçar serviços públicos e dar às empresas locais uma verdadeira oportunidade.Caso contrário, o que se está a construir não é desenvolvimento. É apenas mais uma versão antiga do mesmo problema: Lisboa decide, Lisboa anuncia, Lisboa celebra — e Sines fica com a pressão, os preços, os atrasos e as carências.

Sines merece investimento. Mas merece, sobretudo, que esse investimento melhore a vida de quem cá está.Porque uma terra não se desenvolve apenas com milhões anunciados. Desenvolve-se quando as pessoas conseguem viver melhor.E em Sines, essa promessa continua demasiado longe da realidade.

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