
Há uma espécie de cansaço instalado no país. Não é apenas irritação momentânea, nem simples mau humor contra quem governa. É algo mais profundo. É a sensação, cada vez mais espalhada, de que a política promete muito, explica pouco e muda quase nada na vida concreta das pessoas.
A descrença na política não nasceu do nada. Foi construída ao longo de anos, por governos que prometeram reformas, por partidos que se apresentaram como solução e por lideranças que, quando chegam ao poder ou perto dele, acabam quase sempre presas às mesmas limitações, aos mesmos cálculos e aos mesmos vícios. Hoje, olhando para o quadro nacional, percebe-se porque tantos portugueses se sentem politicamente órfãos.
PSD, PS e Chega aparecem como o trio mais forte nas sondagens, mas nenhum deles parece conseguir responder, de forma convincente, ao problema principal, que é a vida das pessoas continua difícil.
O PSD governa, mas ainda não conseguiu transformar a governação em melhoria prática no quotidiano. Pode apresentar medidas, anunciar intenções, falar de estabilidade, contas certas ou recuperação de confiança. Mas, para quem recebe pouco, paga casa, vê os preços a subir e sente os serviços públicos a falhar, a pergunta é simples: O que mudou realmente?Governar não é apenas ocupar o lugar. É produzir efeitos. É fazer com que as pessoas sintam diferença na saúde, na habitação, nos salários, nos transportes, na segurança e na confiança no futuro. Quando essa diferença não chega, a governação pode até ter explicações, mas perde força política. E para quem se apresentava como a “grande” alternativa, é sem dúvida “poucocinho”.
O PS, por seu lado, continua marcado por uma sombra pesada. Foram demasiados casos, demasiadas suspeitas, demasiadas explicações mal dadas e demasiada proximidade entre poder, interesses e desgaste institucional. O epicentro da queda do último governo socialista foi mesmo em Sines. Mesmo quando procura reconstruir-se, carrega ainda o peso de anos em que a confiança pública foi sendo corroída e profundamente desgastada. O problema do PS não é apenas eleitoral. É moral e político. Um partido que governou durante tantos anos z tantos casos sem explicações cabais, não pode aparecer agora como se nada tivesse acontecido. Para voltar a ser alternativa credível, precisa de mais do que mudar rostos ou discurso. Precisa de convencer o país de que aprendeu alguma coisa com os largos erros que ajudaram a alimentar a descrença.
Depois há o Chega, que cresce precisamente no espaço deixado pelos outros. Percebeu perfeitamente a revolta, a frustração e o sentimento de abandono. Sabe dizer aquilo que muitas pessoas querem ouvir. Fala grosso, acusa, simplifica em demasia e promete cortar com tudo. O problema é que dizer o que revolta não é o mesmo que apresentar uma alternativa consistente e sobretudo coerente. A indignação pode ganhar votos, mas não resolve hospitais. A indignação pode encher discursos, mas não constrói casas. A denúncia pode ser necessária, mas sem soluções sérias transforma-se apenas em espectáculo político. E um país não se governa com frases fortes, nem com a permanente exploração do ressentimento. Há mais vida para além das redes sociais.
O mais preocupante é que os três, cada um à sua maneira, contribuem para a mesma conclusão perigosa, de que muitos cidadãos já não acreditam que a política sirva para melhorar a sua vida. A divisão é por demais evidente. Uns desiludem por falta de resultados. Outros por falta de credibilidade. Outros por excesso de ruído e falta de consistência. E quando a política deixa de ser vista como instrumento de transformação, abre-se espaço para duas coisas perigosas: a abstenção e o radicalismo. Ou as pessoas desligam completamente, convencidas de que “são todos iguais”, ou procuram respostas fáceis para problemas difíceis.
A democracia não morre apenas quando alguém a ataca frontalmente. Também enfraquece quando deixa de produzir confiança. Quando os cidadãos sentem que votam, esperam, acreditam e voltam sempre ao mesmo ponto. Quando trabalhar não chega. Quando cumprir não compensa. Quando a honestidade parece ingenuidade e a política parece um jogo fechado com os mesmos jogos de sempre.
Critico todos por igual neste artigo. Não significa no entanto que todos são iguais. Não são. Têm histórias diferentes, responsabilidades diferentes e propostas diferentes. Mas todos têm responsabilidade no ambiente de descrença que se vive. O PSD porque governa e tem de mostrar resultados. O PS porque precisa de limpar a sombra que deixou sobre a governação. O Chega porque não basta cavalgar o descontentamento, é preciso provar que existe solução para além do protesto.
O país precisa de menos teatro e mais consequência. Menos frases feitas e mais respostas concretas. Menos política de soundbite e mais política de responsabilidade. Porque a descrença na política não se combate com propaganda. Combate-se com verdade, resultados e respeito pelas pessoas. E, neste momento, é precisamente isso que falta a demasiada gente sentir.
Autor: Luís Santos
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