
Fala-se muito de burnout como se fosse apenas o resultado de excesso de trabalho. Muitas horas, pressão, prazos apertados, falta de descanso. Tudo isso pesa, claro. Mas há uma parte da conversa que continua a ser empurrada para debaixo do tapete, de que existem ambientes de trabalho que adoecem pessoas não pela quantidade de trabalho, mas pela falta de respeito.
Nem sempre é o trabalho que destrói. Muitas vezes, são as pessoas à volta do trabalho. O colega que critica tudo, mas nunca ajuda. O que cria conflitos nos bastidores. O que vive de “joguinhos”, de boatos, de pequenas provocações, de comentários venenosos. O que está sempre pronto a apontar o dedo, mas nunca aparece quando é preciso resolver alguma coisa. Isto cansa de uma forma diferente. Cansa porque obriga as pessoas a trabalhar em permanente estado de defesa. Cansa porque transforma o dia-a-dia numa tensão constante. Cansa porque tira energia a quem já está a tentar cumprir a sua função, fazer bem o seu trabalho e chegar ao fim do dia com alguma paz.
E convém dizer isto sem rodeios: falta de respeito não é “feitio”. Não é “personalidade forte”. Não é “forma de trabalhar”. É falta de educação, falta de maturidade e, muitas vezes, falta de carácter. Durante demasiado tempo, normalizou-se a ideia de que há pessoas “difíceis” e que os outros têm apenas de aprender a lidar com elas. Como se o problema estivesse sempre em quem sofre o desgaste e nunca em quem o provoca. Como se o silêncio fosse profissionalismo e engolir abusos fosse sinal de competência. Não é. Uma equipa não é destruída apenas por maus resultados. Também é destruída por ambientes tóxicos, por lideranças que fingem não ver, por chefias que preferem manter a paz aparente em vez de resolverem o problema real.
Quando uma empresa permite que alguém trate colegas com desrespeito, a empresa também se torna responsável. Porque aquilo que se tolera acaba por se transformar em cultura. E uma cultura onde a falta de respeito passa sem consequência é uma cultura onde os bons profissionais acabam por se cansar, calar ou ir embora. Não basta contratar pessoas competentes. É preciso garantir que sabem trabalhar com os outros. Saber muito, produzir muito ou ter muitos anos de casa não dá a ninguém o direito de humilhar, manipular, diminuir ou envenenar o ambiente à sua volta.
O trabalho já é duro o suficiente. A vida já é pesada o suficiente. Ninguém devia ter de gastar a pouca energia que lhe resta a sobreviver a colegas que fazem do local de trabalho um campo de batalha. O burnout não nasce apenas do excesso. Também nasce do desgaste invisível. Da tensão acumulada. Do respeito que falta. Das palavras que ferem. Dos conflitos que ninguém resolve.
E enquanto isto continuar a ser tratado como “coisas do trabalho”, vamos continuar a perder pessoas boas por causa de pessoas que nunca aprenderam a trabalhar em equipa.
Autora: Susana Mendes
Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.