
Há livros que não se limitam a contar uma história. Guardam um tempo, uma forma de viver e uma identidade colectiva que podia facilmente perder-se no silêncio dos anos. É nesse território de memória que se inscreve “Entre o Cabo Sardão e o Cabo da Roca. A pesca e a vida quotidiana (1927-1958), nos Diários do ‘Mano Mário’, pescador do Alentejo Litoral”, da autoria de Maria da Luz Correia, publicado pela Kotter Editorial.
A obra parte dos diários de Mário Zurego, conhecido como “Mano Mário”, pescador de Sines, e leva o leitor a entrar no quotidiano de uma comunidade profundamente marcada pelo mar. Entre 1927 e 1958, estes registos acompanharam a vida de quem fazia da pesca não apenas profissão, mas destino, resistência e modo de existência.
Mais do que um livro sobre a actividade piscatória, esta é uma obra sobre pessoas. Sobre homens que enfrentavam o mar, famílias que viviam ao ritmo das marés, comunidades que dependiam da coragem diária dos pescadores e uma Sines onde a pesca ocupava um lugar central na economia, na cultura e na memória local.
Maria da Luz Correia dá assim forma a um trabalho de preservação histórica e afectiva, recuperando palavras, vivências e detalhes que ajudam a compreender melhor o Alentejo Litoral e a importância dos seus pescadores. Nos diários do “Mano Mário” encontram-se rotinas, dificuldades, viagens, trabalho árduo, mas também sinais de pertença, observação e humanidade.
“Entre o Cabo Sardão e o Cabo da Roca” é, por isso, mais do que uma investigação sobre a pesca. É um contributo para a preservação da memória colectiva de Sines e do Alentejo Litoral, devolvendo protagonismo a quem fez do mar uma vida inteira.
Com esta publicação, a autora junta o seu nome ao conjunto de criadores ligados a Sines ou autoque têm levado a identidade local para a literatura, mostrando que a cidade continua a inspirar novas vozes, novos olhares e novas formas de contar o território.