Sobre Sines.

Parte I — Das origens à formação da vila

Muito antes de Sines existir como vila, o território onde hoje se encontra a cidade já era ocupado pelo ser humano. A localização privilegiada junto ao Atlântico, a existência de uma baía naturalmente abrigada e a proximidade de recursos marítimos fizeram desta zona um ponto favorável à fixação de comunidades ao longo dos séculos. A presença romana deixou marcas particularmente importantes.

Na zona do atual centro histórico foram identificados vestígios que comprovam uma ocupação pelo menos desde a época romana. Entre os achados encontram-se um pedestal de estátua dedicado ao deus Marte, posteriormente incorporado nas muralhas do Castelo de Sines, e estruturas associadas a uma fábrica de salga de peixe descobertas no Largo João de Deus. A produção e conservação de pescado demonstram que a relação de Sines com o mar e com a exploração dos seus recursos tem raízes com cerca de dois mil anos. A localização ajudava a explicar essa importância. Sines encontrava-se relativamente próxima de Miróbriga, um dos principais centros urbanos romanos desta região, e numa posição costeira que permitia aproveitar as condições naturais para atividades portuárias, vigilância e defesa. A baía que séculos mais tarde seria determinante para o desenvolvimento da vila já constituía, portanto, um elemento central da ocupação deste território. A ocupação não desapareceu com o fim do Império Romano.

Existem indícios de que, durante a Alta Idade Média, terá existido no morro onde hoje se encontra o Castelo um edifício de culto cristão, possivelmente do século VII ou de época moçárabe. Parte desses vestígios acabaria mais tarde integrada nas estruturas medievais. A atual Igreja Matriz de São Salvador ergue-se precisamente numa zona onde existiu anteriormente um templo medieval e, antes dele, uma basílica altimedieval. Os séculos seguintes são menos conhecidos. Os vestígios materiais relativos ao período islâmico são escassos e não permitem reconstruir com a mesma segurança a evolução da povoação. Depois da Reconquista cristã, Sines ficou ligada a Santiago do Cacém e à Ordem de Santiago. A conquista definitiva da povoação é atribuída ao reinado de D. Afonso III. Foi entre os séculos XIII e XIV que Sines começou a afirmar-se de forma mais clara. A povoação desenvolveu-se em torno do seu porto e das atividades ligadas ao mar. Pesca, circulação de pessoas e mercadorias e utilização da costa foram progressivamente dando importância a um núcleo que continuava administrativamente dependente de Santiago do Cacém.

O momento decisivo chegou em 1362. Nesse ano, o rei D. Pedro I concedeu carta de foral a Sines, permitindo que a povoação se autonomizasse de Santiago do Cacém. A autonomia trazia, contudo, uma obrigação: os habitantes deveriam construir uma fortaleza para defender a nova vila. A construção do Castelo não terá começado imediatamente. A documentação patrimonial aponta para 1424 como um momento determinante para a concretização da fortificação, na sequência de uma iniciativa do procurador do povo Francisco Neto Pão Alvo. O Castelo de Sines que chegou aos nossos dias apresenta, por isso, características mais tardias do que seria de esperar de uma fortaleza construída imediatamente após o foral de 1362. A partir daí, Sines deixava definitivamente de ser apenas uma pequena povoação costeira dependente de Santiago do Cacém. Tinha autonomia municipal, uma estrutura defensiva própria e um porto que continuaria a marcar o seu desenvolvimento. Estavam lançadas as bases da vila que, ao longo dos séculos seguintes, ficaria ligada à pesca, ao comércio marítimo, à defesa da costa e, inevitavelmente, a uma das figuras mais importantes da História de Portugal: Vasco da Gama.

Parte II — Sines, a terra de Vasco da Gama

No século XV, Sines era já uma vila autónoma, protegida pelo seu castelo e profundamente ligada ao mar. A pesca, as atividades portuárias e a defesa da costa faziam parte da vida de uma população que habitava um território sob forte influência da Ordem de Santiago.

Era neste contexto que a família Gama assumia uma posição de destaque. Estêvão da Gama, pai de Vasco da Gama, foi alcaide-mor e comendador de Sines nos finais do século XV, exercendo importantes funções militares e administrativas na vila. Foi precisamente em Sines que, segundo a tradição histórica sustentada pela investigação local, nasceu Vasco da Gama, por volta de 1469.

O local mais provável do nascimento é o próprio Castelo de Sines, onde o seu pai exercia funções. Durante muito tempo existiu a tradição de que Vasco da Gama teria nascido numa casa situada na atual Rua Vasco da Gama, mas essa hipótese seria posteriormente contestada pela investigação histórica, que apontou o Castelo como o local compatível com a posição ocupada pela família. Vasco da Gama cresceu assim numa vila virada para o Atlântico, onde o mar fazia parte do quotidiano e onde a sua própria família estava ligada à administração e defesa do território. Ainda jovem, a sua ligação à Ordem de Santiago também se tornou evidente. Em 1480, terá recebido a prima tonsura na antiga Igreja Matriz de Sines, templo medieval que existia no local da atual Igreja de São Salvador.

Poucos anos depois, Portugal entrava definitivamente numa das fases mais marcantes da sua história. A procura de uma rota marítima para a Índia transformou o Atlântico numa das grandes fronteiras da expansão portuguesa e Vasco da Gama acabaria escolhido para comandar a armada que partiu de Lisboa em julho de 1497. Depois de contornar o Cabo da Boa Esperança e atravessar o oceano Índico, a expedição chegou a Calecute em maio de 1498, estabelecendo a ligação marítima entre a Europa e a Índia. Quando Vasco da Gama regressou a Portugal em 1499, regressava como uma das figuras mais importantes do reino. Para Sines, o feito tinha um significado particular: o homem que comandara aquela viagem histórica tinha nascido na pequena vila alentejana voltada para o Atlântico. D. Manuel I procurou recompensá-lo e, em 1499, prometeu-lhe o senhorio de Sines, então na posse da Ordem de Santiago. Mas aquilo que poderia ter transformado Vasco da Gama em senhor da sua terra natal originou um prolongado conflito. A Ordem de Santiago não aceitou facilmente perder os seus direitos sobre a vila e a relação entre o navegador e a Ordem tornou-se particularmente difícil. Vasco da Gama iniciou também intervenções em Sines, entre elas a construção de uma nova igreja dedicada a Santa Maria, destinada a substituir a antiga ermida de Nossa Senhora das Salas. A ligação do navegador àquela ermida ficaria para sempre marcada na história e no património da cidade. A oposição da Ordem de Santiago, porém, acabaria por prevalecer. Apesar do prestígio alcançado com a viagem à Índia e da promessa feita pelo rei, Vasco da Gama não conseguiu estabelecer definitivamente o seu domínio sobre Sines. Em 1507 acabou mesmo expulso da vila. Era uma situação extraordinária: um dos homens mais importantes do reino era afastado precisamente da terra onde nascera. A ligação, contudo, nunca desapareceu. As obras da nova Igreja de Nossa Senhora das Salas prosseguiram e o templo seria posteriormente concluído, conservando até hoje a memória da intervenção de Vasco da Gama.

Sines entrava assim no século XVI ligada diretamente à expansão marítima portuguesa. Uma vila relativamente pequena da costa alentejana tinha dado ao mundo o navegador que comandara a primeira viagem marítima entre a Europa e a Índia. A partir desse momento, a história de Sines e a memória de Vasco da Gama ficariam definitivamente unidas.

Parte III — Entre o mar, a pesca e os ataques corsários

Depois da época de Vasco da Gama, Sines entrou nos séculos XVI e XVII mantendo aquilo que durante muito tempo definiu a vida da vila: uma relação quase permanente com o mar. O porto continuava a ser fundamental para a economia local, sobretudo através da pesca e da circulação de mercadorias, enquanto a posição de Sines na costa portuguesa lhe conferia também importância estratégica. Mas viver junto ao Atlântico trazia perigos. Durante os séculos XVI e XVII, a costa portuguesa esteve exposta à ação de corsários e piratas, particularmente provenientes do Norte de África, que atacavam embarcações e povoações costeiras, saqueavam bens e capturavam pessoas. Sines não ficou à margem desta realidade. A necessidade de proteger a população e controlar a aproximação de embarcações levou ao reforço das estruturas defensivas existentes e à criação de novos pontos de vigilância ao longo da costa.

O Castelo de Sines continuava a desempenhar uma função defensiva, mas a evolução da artilharia e das ameaças vindas do mar tornava insuficiente uma fortificação medieval concebida noutro contexto. A defesa da baía ganhou, por isso, uma importância crescente. Mais a sul, Porto Covo começava também a assumir relevância num litoral marcado por pequenas enseadas, atividades piscatórias e circulação marítima. Ao mesmo tempo, a vida quotidiana de Sines permanecia profundamente ligada à pesca. Gerações de famílias dependiam diretamente do mar, enquanto outras atividades relacionadas com a transformação e comercialização do pescado contribuíam para a economia local. A agricultura e a exploração dos recursos do território completavam uma economia que continuava relativamente pequena e muito dependente das condições naturais. A Igreja tinha igualmente uma presença determinante na organização social da vila.

A Igreja Matriz de São Salvador e o Santuário de Nossa Senhora das Salas eram referências religiosas da população, com este último particularmente associado às comunidades marítimas e à proteção daqueles que enfrentavam os perigos do oceano. Durante este período, Sines atravessou também os grandes acontecimentos da história portuguesa. A crise dinástica de 1580 colocou Portugal sob domínio dos reis espanhóis durante seis décadas e aumentou a exposição da costa portuguesa aos inimigos da Monarquia Hispânica. Depois da restauração da independência, em 1640, tornou-se necessário reforçar novamente vários pontos estratégicos do litoral. Foi neste contexto que, no final do século XVII, surgiu uma das construções militares mais importantes da região: o Forte do Pessegueiro, implantado frente à ilha com o mesmo nome. A fortificação integrava um projeto defensivo destinado a proteger aquele setor da costa e a controlar a navegação. Na própria Ilha do Pessegueiro chegou também a ser iniciada uma fortificação, permanecendo até hoje vestígios desse sistema defensivo. A presença humana naquela zona, contudo, era muito anterior: A ilha conserva vestígios arqueológicos de diferentes épocas, incluindo estruturas associadas ao período romano, mostrando mais uma vez como este litoral foi utilizado durante muitos séculos. Sines chegou assim ao século XVIII como uma pequena vila marítima cuja identidade se tinha construído entre a pesca, o porto, a religião e a necessidade constante de olhar para o horizonte.

O mar que garantia sustento e permitia contactos com outros lugares era também a principal porta de entrada do perigo. Essa relação entre oportunidade e ameaça marcou profundamente várias gerações de sineenses e deixou no território algumas das estruturas defensivas que ainda hoje fazem parte da paisagem do concelho.

Parte IV — O terramoto, a reconstrução e o nascimento de Porto Covo

O século XVIII trouxe profundas mudanças a Sines e ao território que hoje forma o concelho. A vila continuava dependente do mar, da pesca e de uma economia relativamente modesta, mas um dos acontecimentos mais devastadores da história de Portugal deixaria também aqui a sua marca.

Na manhã de 1 de novembro de 1755, o grande terramoto que destruiu grande parte de Lisboa atingiu violentamente o litoral português. Sines sofreu importantes danos, sobretudo nos seus edifícios religiosos e estruturas mais antigas. A Igreja Matriz de São Salvador ficou seriamente afetada e teve de ser reconstruída, adquirindo posteriormente grande parte da configuração que hoje conhecemos. O Castelo também sofreu os efeitos do sismo, num período em que a sua importância militar já começava a diminuir. O impacto do terramoto não se limitou aos edifícios. Ao longo da costa, a agitação marítima associada ao desastre atingiu várias localidades e obrigou as populações a enfrentar novamente a vulnerabilidade de viver junto ao Atlântico. Sines recuperou gradualmente e a segunda metade do século XVIII ficou marcada por transformações que acabariam por alterar também a organização do território a sul da vila.

Foi precisamente nesta época que começou a ganhar forma Porto Covo. Embora aquela zona costeira fosse utilizada há muito por pescadores e marinheiros e existissem referências anteriores ao pequeno porto, o desenvolvimento organizado da povoação está ligado a Jacinto Fernandes Bandeira, um poderoso comerciante que se interessou pelo local no final do século XVIII. Em 1784, Fernandes Bandeira recebeu o título de Senhor de Porto Covo e iniciou um ambicioso projeto para desenvolver a povoação e aproveitar as potencialidades do seu pequeno porto. O plano urbano de Porto Covo foi concebido segundo princípios geométricos característicos do urbanismo iluminista português da época, com ruas organizadas de forma regular em torno de uma praça central. Esta organização, ainda hoje claramente visível, distingue Porto Covo de muitas povoações costeiras que cresceram de forma mais espontânea. A atual Praça Marquês de Pombal tornou-se o centro desse projeto, com a igreja e os edifícios dispostos segundo uma composição cuidadosamente planeada. A ligação de Fernandes Bandeira ao desenvolvimento da localidade foi reconhecida pela Coroa e, em 1805, recebeu o título de Barão de Porto Covo da Bandeira. Enquanto Porto Covo começava a afirmar-se no sul do território, Sines mantinha a sua importância enquanto vila piscatória e portuária. O movimento de pequenas embarcações, a pesca e o comércio continuavam a marcar o quotidiano, enquanto a agricultura permanecia essencial nas áreas rurais.

No final do século XVIII, o território apresentava assim duas realidades diferentes mas profundamente ligadas ao mesmo mar: Sines, uma vila antiga com séculos de história, castelo e tradição marítima, e Porto Covo, uma povoação que começava a adquirir a forma urbana que ainda hoje a caracteriza. A entrada no século XIX traria, porém, novos desafios. Portugal seria atingido pelas invasões francesas, pelas guerras e pelas profundas transformações políticas que acabariam com o Antigo Regime. Sines e Porto Covo entravam numa nova época, enquanto o país caminhava para algumas das maiores mudanças sociais e políticas da sua história.

Parte V — O século XIX, o fim do concelho e uma vila que vivia do mar.

O século XIX começou num período de grande instabilidade em Portugal. As invasões francesas, iniciadas em 1807, a fuga da corte para o Brasil, a Revolução Liberal de 1820 e a guerra civil entre liberais e absolutistas transformaram profundamente o país. Sines, embora afastada dos principais centros onde decorreram estes acontecimentos, não ficou isolada das mudanças políticas, económicas e administrativas que se seguiram.

A extinção das ordens religiosas e as reformas liberais alteraram estruturas que durante séculos tinham marcado a organização do território, enquanto uma nova administração municipal começava a desenhar-se em Portugal. Foi precisamente neste contexto que Sines sofreu uma das maiores alterações administrativas da sua história. Em 1855, durante uma reorganização territorial promovida pelo Governo, o concelho de Sines foi extinto e o seu território integrado no concelho de Santiago do Cacém. Sines perdia assim a autonomia municipal que remontava ao foral concedido por D. Pedro I em 1362. A situação prolongar-se-ia durante várias décadas e tornar-se-ia uma das questões mais marcantes da história local oitocentista. Apesar da perda de autonomia administrativa, a vila continuou a desenvolver a sua vida em torno do mar. A pesca permanecia essencial para muitas famílias e o porto continuava a servir pequenas embarcações e atividades comerciais. A ligação entre a população e a baía era direta: dela dependiam pescadores, comerciantes, trabalhadores marítimos e muitas das atividades que davam vida à economia local. Ao longo do século XIX começaram também a surgir transformações económicas que preparariam uma nova etapa da história de Sines.

A pesca deixou progressivamente de estar associada apenas ao consumo local e ganhou maior dimensão comercial. A conservação e transformação do pescado começaram a assumir crescente importância, antecipando a indústria conserveira que se tornaria particularmente relevante nas décadas seguintes. A própria estrutura urbana da vila foi evoluindo para acompanhar o crescimento da população e das atividades económicas. Porto Covo, por sua vez, continuava a desenvolver-se como pequena povoação marítima, mantendo o desenho urbano planeado no final do século anterior e uma economia ligada sobretudo à pesca, à agricultura e ao pequeno porto. A Ilha do Pessegueiro e as fortificações costeiras permaneciam como testemunhos de uma época em que a defesa daquele litoral tinha sido uma prioridade, embora a sua função militar tivesse perdido grande parte da importância. A segunda metade do século XIX trouxe também progressos que lentamente aproximavam Sines das transformações que estavam a ocorrer no resto do país. Melhoraram algumas comunicações e serviços e começaram a surgir novas formas de organização económica e social. Mas a questão da autonomia continuava presente. A integração em Santiago do Cacém nunca apagou a identidade própria de Sines nem a memória de séculos de administração municipal.

Depois de quase seis décadas sem concelho próprio, a situação mudou com a implantação da República. Em 1914, o concelho de Sines foi restaurado, recuperando a autonomia perdida em 1855. A decisão encerrava um longo período da história local e devolvia a Sines a capacidade de administrar diretamente o seu território. Quando entrou no século XX, Sines continuava muito diferente da cidade industrial e portuária que viria a nascer várias décadas mais tarde. Era ainda uma vila essencialmente marítima, marcada pela pesca, pelo comércio local e por uma relação quotidiana com a baía. Mas começavam já a aparecer os sinais de uma transformação económica importante. Nas primeiras décadas do novo século, a indústria conserveira cresceria e empregaria centenas de pessoas, alterando a economia e a sociedade sineenses. Muito antes das grandes chaminés, dos petroleiros e dos terminais que transformariam definitivamente a paisagem, seria o peixe que protagonizaria a primeira grande industrialização moderna de Sines.

Parte VI — Cortiça, conservas, pescadores e a chegada do comboio

Com a restauração do concelho em 1914, Sines entrou numa nova etapa da sua história. Manuel Farelo tornou-se o primeiro presidente da Câmara Municipal do concelho restaurado e a vila recuperou uma autonomia perdida durante quase seis décadas. Mas o Sines das primeiras décadas do século XX estava ainda muito longe da cidade industrial e portuária que conhecemos atualmente.

Era uma terra onde o trabalho dependia sobretudo da cortiça, da pesca, das conservas, da agricultura e das atividades ligadas ao pequeno porto. A indústria corticeira tinha alcançado uma dimensão considerável. Em 1908 funcionavam em Sines cinco fábricas que empregavam cerca de 400 operários e, em 1911, o setor representava aproximadamente um terço da população ativa. Ao mesmo tempo, centenas de pessoas estavam direta ou indiretamente ligadas ao mar. Em 1911, só as armações de pesca empregavam entre 160 e 180 trabalhadores, aos quais se juntavam pescadores por conta própria, carregadores, descarregadores e tripulações das embarcações. Entre 1914 e 1918 chegaram a existir cinco armações em Sines. A abundância de pescado favoreceu naturalmente outra atividade: as conservas. A indústria conserveira tinha começado a instalar-se em Sines no final do século XIX e ganhou expressão nas primeiras décadas do século XX. Existiram unidades como a fábrica de conservas de sardinha junto a Nossa Senhora das Salas, a de Pierre Biziers, a Mercantil da Índia, a Société La Bretagne, a Lidadora e outras empresas. Uma das maiores foi a J. A. Júdice Fialho, que em 1925 empregava 128 trabalhadores e estava entre as maiores empresas industriais do Alentejo. A industrialização começou também a transformar fisicamente a vila. Fábricas de cortiça e de conservas instalaram-se em diferentes zonas e o sítio das Índias tornou-se um espaço particularmente marcado pela presença de indústrias e de população operária. Ali existiram, entre outras, a fábrica de conservas de Júdice Fialho e uma fábrica de cortiça de José Pratz. Trabalhadores, marítimos e pescadores foram construindo habitações naquela área, muitas delas inicialmente bastante precárias. Em 1931, a Câmara delimitou oficialmente parte do sítio das Índias para a fixação de operários, marítimos e pescadores. A vida laboral nem sempre era tranquila. O movimento operário ganhou força e Sines conheceu greves e reivindicações por melhores salários e condições de trabalho. A Liga Operária Sineense desempenhou igualmente um papel na defesa dos trabalhadores, particularmente durante os difíceis anos da Primeira Guerra Mundial, quando os problemas de abastecimento e a instabilidade económica afetaram a população. Lentamente começaram também a chegar sinais de modernização.

Em 1909 já tinha aparecido em Sines o primeiro animatógrafo. Na década de 1930 chegou o serviço telefónico e, em 1933, começou a instalação da iluminação elétrica no centro urbano. Mas uma das mudanças mais simbólicas ocorreu a 14 de setembro de 1936, quando o comboio, vindo do Barreiro, chegou pela primeira vez a Sines. A ligação ferroviária representava uma velha ambição local e criava novas possibilidades para o transporte de pessoas e mercadorias. Nos anos seguintes, outras infraestruturas foram melhorando as condições de vida. Em 1940 começou a construção do depósito de água e os trabalhos de canalização da vila e, em 1944, entrou em funcionamento a rede de abastecimento de água, inicialmente limitada ao atual centro histórico. Em 1943 tinha sido fundada a Associação dos Bombeiros Voluntários de Sines e, em 1949, foram entregues quatro salas da Escola Primária. Apesar destes progressos, a partir da Segunda Guerra Mundial a economia local entrou num período de estagnação. A indústria corticeira enfrentou novos concorrentes e materiais alternativos, enquanto o porto e as acessibilidades não receberam investimentos capazes de provocar uma transformação profunda. A pesca continuava presente, mas Sines começou também a afirmar-se como praia de banhos do Alentejo, recebendo visitantes atraídos pela baía e pelas praias. Até aos anos 60, Sines conservou em grande medida a imagem de uma vila tradicional alentejana junto ao mar. A baía continuava dominada pelos pescadores, o casario mantinha uma escala relativamente pequena e o centro urbano pouco tinha a ver com aquilo que surgiria poucos anos depois.

Essa Sines estava, porém, prestes a desaparecer para sempre. No início da década de 1970, o Estado português tomou uma decisão que mudaria radicalmente o território, a população, a economia e a própria paisagem. As águas profundas existentes ao largo de Sines fizeram com que esta pequena vila piscatória fosse escolhida para receber um dos maiores projetos industriais e portuários alguma vez realizados em Portugal. Começava a maior transformação da história moderna de Sines.

Parte VII — A grande transformação industrial.

No início da década de 1970, Sines estava prestes a sofrer a maior transformação da sua história. A antiga vila piscatória, ainda marcada pela baía, pelas praias, pelas conservas e por uma economia de dimensão relativamente pequena, foi escolhida pelo Estado português para receber um gigantesco complexo portuário e industrial. A decisão resultava sobretudo de uma característica natural decisiva: ao largo de Sines existiam águas profundas muito próximas da costa, permitindo a entrada de grandes navios e petroleiros sem as limitações existentes noutros portos portugueses.

Em 1971, o Governo decidiu avançar com o projeto e, no ano seguinte, foi criado o Gabinete da Área de Sines, conhecido como GAS, organismo responsável pelo planeamento e desenvolvimento daquela que deveria tornar-se uma das principais áreas industriais do país. O projeto tinha uma dimensão extraordinária para a época. Pretendia-se construir um porto de águas profundas capaz de receber grandes navios, instalar uma refinaria, desenvolver indústrias petroquímicas e criar infraestruturas energéticas e logísticas que reduzissem a dependência portuguesa das instalações existentes na região de Lisboa. Sines passava assim de pequena vila do litoral alentejano para peça central da estratégia económica nacional.

A transformação começou rapidamente e teve consequências profundas no território. Grandes extensões de terrenos foram adquiridas ou expropriadas para permitir a instalação das novas infraestruturas. Campos, propriedades rurais e zonas tradicionalmente utilizadas pela população passaram a integrar a área destinada ao complexo industrial. A construção do porto alterou igualmente a linha de costa e a relação secular entre a vila e a sua baía. As obras mobilizaram milhares de trabalhadores e atraíram para Sines pessoas provenientes de diferentes regiões do país. Engenheiros, técnicos, operários da construção civil e trabalhadores especializados chegaram a um concelho que até então tinha uma população relativamente pequena. A procura de habitação aumentou rapidamente e tornou-se necessário planear novos bairros, equipamentos e serviços. Foi neste contexto que surgiu uma das zonas mais características da Sines contemporânea: a expansão urbana para norte, associada ao planeamento desenvolvido durante o período do Gabinete da Área de Sines. A cidade começou a crescer para além do seu núcleo histórico e apareceram novas habitações, escolas, arruamentos e equipamentos destinados a responder ao aumento populacional previsto. Ao mesmo tempo, junto à costa e na zona industrial, avançavam algumas das maiores obras de engenharia realizadas em Portugal naquele período. Em 1973 começaram os trabalhos de construção do porto e, em 1978, entrou em funcionamento o Terminal Petroleiro. A refinaria de Sines iniciou igualmente a sua atividade em 1978. O projeto, porém, atravessou uma época particularmente turbulenta. A Revolução de 25 de Abril de 1974 ocorreu quando o complexo ainda estava em plena construção e alterou profundamente o contexto político e económico em que tinha sido concebido. Poucos meses antes, a crise petrolífera internacional de 1973 já tinha colocado em causa algumas das previsões que sustentavam o enorme investimento industrial. A subida do preço do petróleo e as mudanças na economia mundial obrigaram a rever parte dos planos iniciais.

Nem tudo aquilo que tinha sido imaginado para Sines acabaria por ser construído. Ainda assim, a transformação era irreversível. A instalação da refinaria, do porto e posteriormente do complexo petroquímico criou milhares de empregos diretos e indiretos e mudou radicalmente a estrutura económica local. Sines deixou de depender essencialmente da pesca, das pequenas indústrias e do comércio tradicional para passar a acolher algumas das maiores empresas industriais existentes em Portugal. Esta mudança teve também custos sociais e ambientais. A população assistiu à transformação de uma paisagem que durante gerações estivera ligada à agricultura, às praias e à pesca. Algumas zonas desapareceram ou mudaram profundamente, enquanto a presença das novas unidades industriais trouxe preocupações relacionadas com poluição, segurança e qualidade ambiental. A própria pesca teve de se adaptar à construção das novas infraestruturas portuárias e às alterações introduzidas na costa.

Em 1977, Sines foi elevada a cidade, um reconhecimento que coincidia simbolicamente com a profunda transformação urbana e económica em curso. Já não era apenas a pequena vila onde durante séculos pescadores tinham lançado os barcos ao mar a partir da praia. Tornava-se uma cidade industrial e portuária com importância nacional. O Gabinete da Área de Sines seria extinto em 1986, encerrando formalmente uma experiência de planeamento territorial que marcou profundamente o concelho. Mas aquilo que tinha começado na década de 1970 estava longe de terminar. As infraestruturas então construídas criaram as bases para uma nova fase de crescimento. Nas décadas seguintes, o Porto de Sines expandir-se-ia, surgiriam novos terminais e novas indústrias e, já no início do século XXI, a construção do Terminal XXI colocaria Sines nas grandes rotas internacionais de contentores. Em poucas décadas, a pequena vila piscatória que durante séculos vivera voltada para a sua baía tinha-se transformado num dos principais centros portuários, industriais e energéticos de Portugal.

Parte VIII — Do fim do GAS à chegada do Terminal XXI

Com a extinção do Gabinete da Área de Sines, em 1986, terminou uma das fases mais intensas da transformação do território, mas o desenvolvimento industrial e portuário estava longe de terminar. Sines tinha mudado definitivamente. O porto de águas profundas, a refinaria e o complexo petroquímico tinham criado uma nova realidade económica e uma cidade muito diferente daquela que existia apenas duas décadas antes. A partir dos anos 80 e 90 começou uma fase de consolidação.

O Porto de Sines afirmou-se sobretudo na movimentação de produtos energéticos e matérias-primas, aproveitando as condições naturais da costa e as infraestruturas construídas durante o grande projeto industrial. O Terminal de Granéis Líquidos assumiu um papel fundamental no abastecimento da refinaria, enquanto outras áreas portuárias foram sendo desenvolvidas para responder às necessidades da indústria instalada na região. A central termoelétrica, o complexo petroquímico e outras grandes unidades reforçaram a importância de Sines no sistema energético e industrial português. Ao mesmo tempo, a cidade procurava adaptar-se às consequências do crescimento acelerado das décadas anteriores. Os bairros construídos durante o período do GAS passaram a fazer parte da estrutura urbana permanente, novos equipamentos foram surgindo e uma população formada por sineenses e por milhares de pessoas que tinham chegado de outras regiões do país criou uma nova identidade local. A pesca não desapareceu. Continuou a fazer parte da economia e da cultura de Sines, agora enquadrada numa cidade onde conviviam o porto de pesca, o enorme porto industrial e uma das maiores concentrações industriais de Portugal. Porto Covo seguia um caminho diferente. Mantendo uma escala muito menor e uma forte ligação ao mar, começou a ganhar cada vez maior importância turística, beneficiando da preservação da sua paisagem costeira e das praias que mais tarde fariam parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Durante os anos 90, Sines começou também a procurar uma nova posição no transporte marítimo internacional. O crescimento mundial da contentorização estava a transformar profundamente o comércio e os grandes portos. A localização de Sines, próxima das principais rotas marítimas entre a Europa, o Mediterrâneo, África e as Américas, juntamente com as águas profundas existentes junto à costa, oferecia condições para receber os maiores navios porta-contentores. Foi neste contexto que nasceu o projeto daquele que viria a ser o Terminal XXI. A concessão do terminal de contentores foi atribuída à PSA Sines e, no início do novo século, começaram as obras de construção de uma infraestrutura que mudaria novamente a dimensão internacional do Porto de Sines. Em 2004, o Terminal XXI iniciou a sua atividade. O começo foi relativamente modesto quando comparado com os números que o terminal viria a alcançar anos mais tarde, mas representava uma mudança estratégica profunda. Até então, Sines era conhecido sobretudo como um grande porto energético e industrial. A partir daquele momento começava também a disputar espaço no transporte mundial de contentores. A localização geográfica tornou-se uma das suas principais vantagens. Os navios que atravessavam o Atlântico ou seguiam entre o Mediterrâneo e outras regiões do mundo podiam utilizar Sines sem os grandes desvios necessários para alcançar alguns portos do norte da Europa. O modelo de Transhipment, no qual os contentores são transferidos entre grandes navios oceânicos e embarcações que servem outros portos, tornou-se progressivamente uma das bases da atividade do Terminal XXI. A nova infraestrutura trouxe investimentos, emprego e uma nova especialização profissional para Sines. Gruas de grandes dimensões passaram a dominar uma parte da paisagem portuária e os navios porta-contentores tornaram-se uma presença habitual ao largo da cidade. Também a necessidade de melhorar as ligações terrestres ganhou maior importância. Um porto internacional não poderia depender apenas da sua posição marítima: seria necessário reforçar as ligações ferroviárias e rodoviárias ao interior da Península Ibérica e ao restante mercado europeu. Sines entrava assim no século XXI com uma nova ambição. Depois de ter sido vila piscatória, centro conserveiro e posteriormente um dos principais polos energéticos e industriais portugueses, preparava-se para assumir outra função: tornar-se uma das grandes portas atlânticas da Europa. O Terminal XXI seria o motor dessa nova transformação e, nas duas décadas seguintes, cresceria de forma sucessiva até colocar o nome de Sines nas principais rotas mundiais do transporte marítimo de contentores.

Parte IX — Sines entra nas grandes rotas mundiais.

A entrada em funcionamento do Terminal XXI, em 2004, abriu uma nova etapa na história de Sines. O porto que durante décadas tinha estado sobretudo associado ao petróleo, aos produtos energéticos e às grandes indústrias passou a assumir um papel cada vez mais relevante no transporte internacional de contentores. A localização geográfica de Sines, próxima das principais rotas marítimas que ligam a Europa às Américas, África, Mediterrâneo e Ásia, juntamente com a existência de águas profundas e ausência de grandes restrições físicas à entrada dos navios, permitiu acompanhar uma tendência que estava a transformar o comércio mundial: porta-contentores cada vez maiores e uma crescente concentração das escalas nos portos capazes de os receber. O Terminal XXI foi sendo sucessivamente ampliado. Novas gruas, mais cais e maior capacidade de parque permitiram receber navios de dimensões que poucos anos antes seriam difíceis de imaginar em Sines. O Transhipment ganhou particular importância, com milhares de contentores a chegarem em grandes navios oceânicos para serem posteriormente transferidos para outras embarcações com destino a diferentes portos. Ao mesmo tempo, foi crescendo a aposta na carga com origem ou destino terrestre, essencial para transformar Sines não apenas num ponto de passagem marítimo, mas numa verdadeira porta de entrada e saída de mercadorias para Portugal e para o interior da Península Ibérica. A ferrovia tornou-se, por isso, uma peça cada vez mais importante da estratégia do porto. A modernização das ligações ferroviárias e a construção de novos troços destinados a melhorar a ligação de Sines à fronteira espanhola procuraram aproximar o porto dos grandes corredores logísticos europeus. A ambição era clara: aproveitar a posição atlântica de Sines para fazer chegar mercadorias ao interior da Península Ibérica e, progressivamente, a outros mercados europeus. Mas o crescimento de Sines no século XXI não ficou limitado aos contentores. O porto manteve uma posição central no abastecimento energético do país. O Terminal de Gás Natural Liquefeito, inaugurado em 2004, passou a permitir a receção de GNL transportado por grandes navios metaneiros, a sua armazenagem e posterior introdução na rede nacional de gás. A importância desta infraestrutura tornar-se-ia ainda mais evidente anos depois, quando a segurança e diversificação do abastecimento energético europeu ganharam uma nova dimensão. A refinaria, o complexo petroquímico, os terminais de granéis e a Zona Industrial e Logística de Sines continuaram igualmente a fazer do concelho um dos principais polos industriais portugueses.

Ao longo das décadas de 2000 e 2010, novas empresas instalaram-se ou reforçaram a sua presença, enquanto o porto continuava a aumentar a movimentação de mercadorias. Sines começou também a ser encarado como um território estratégico para novas atividades. A disponibilidade de grandes áreas industriais, a proximidade do porto, as infraestruturas energéticas e, mais tarde, a chegada de cabos submarinos internacionais de telecomunicações criaram condições para investimentos que iam muito além das atividades tradicionalmente associadas ao complexo industrial. O crescimento trouxe, contudo, novos desafios à cidade. A procura de trabalhadores especializados aumentou e a pressão sobre a habitação tornou-se progressivamente mais visível. A capacidade das escolas, serviços de saúde, acessibilidades e restantes equipamentos públicos passou também a ser confrontada com uma realidade económica cuja dimensão ultrapassava largamente o número de habitantes do concelho. Sines encontrava-se perante um paradoxo que se tornaria cada vez mais evidente: uma pequena cidade acolhia infraestruturas e investimentos de importância nacional e internacional. Entretanto, o Terminal XXI continuou a crescer e os grandes porta-contentores passaram a fazer parte da paisagem habitual da cidade. As enormes gruas visíveis a vários quilómetros de distância tornaram-se um novo símbolo de Sines, tal como durante séculos tinham sido os barcos de pesca na baía. A transformação iniciada nos anos 70 atingia assim uma nova dimensão. Sines já não era apenas um grande porto português. Estava integrada nas cadeias logísticas globais e ligada diariamente a mercados situados a milhares de quilómetros de distância. Ao mesmo tempo, começava a desenhar-se uma nova transformação.

A transição energética, os projetos de hidrogénio e combustíveis renováveis, os grandes centros de dados, os cabos submarinos e a procura europeia por capacidade para a Inteligência Artificial voltavam a colocar Sines no centro de decisões estratégicas. Depois do mar, da pesca, da indústria pesada e dos contentores, a cidade preparava-se para entrar numa nova era.

Parte X — Do Atlântico para o futuro.

Sines chega a meio da década de 20 do século XXI, novamente no centro de uma transformação profunda. A cidade que começou por crescer em torno da pesca e da sua baía, que no século XX recebeu um dos maiores complexos industriais e portuários portugueses e que entrou no século XXI nas grandes rotas mundiais de contentores, prepara-se agora para uma nova etapa marcada pela energia, pela tecnologia, pelas comunicações digitais e por investimentos de dimensão internacional. O Porto de Sines continua a ser o principal motor desta realidade. O crescimento do Terminal XXI consolidou a presença de Sines nas cadeias logísticas globais e novos projetos procuram aumentar ainda mais a capacidade portuária.

Entre eles encontra-se o futuro Terminal Vasco da Gama, pensado para reforçar significativamente a capacidade de movimentação de contentores e aproveitar as condições naturais de águas profundas que, há mais de meio século, estiveram na origem da escolha de Sines para a construção do grande porto industrial. Mas a transformação atual ultrapassa largamente o transporte marítimo. A Zona Industrial e Logística de Sines tornou-se um território procurado para projetos relacionados com a transição energética. Hidrogénio renovável, combustíveis de baixo carbono, biocombustíveis, energia solar e outras soluções destinadas à descarbonização estão entre as áreas que atraem investimento para a região. O objetivo é aproveitar uma combinação difícil de encontrar noutros locais: porto de águas profundas, grandes áreas industriais, infraestruturas energéticas, ligação à rede elétrica e proximidade das rotas marítimas internacionais. Ao mesmo tempo, surgiu uma nova dimensão que poucas décadas antes dificilmente seria associada a Sines: a economia digital. A chegada à costa de importantes cabos submarinos internacionais de telecomunicações colocou o concelho numa posição estratégica para a circulação mundial de dados. As ligações através do Atlântico aproximaram digitalmente Sines de outros continentes e ajudaram a criar condições para a instalação de grandes centros de dados.

O desenvolvimento do campus de data centers em Sines tornou-se uma das faces mais visíveis desta nova economia. A crescente procura mundial por capacidade computacional, armazenamento de dados e Inteligência Artificial aumenta ainda mais a importância de locais que consigam combinar conectividade internacional, disponibilidade energética e espaço para grandes infraestruturas. Mais uma vez, características geográficas que durante séculos determinaram a relação de Sines com o mar voltam a influenciar o seu futuro, agora num mundo em que pelo fundo desse mesmo oceano passam também algumas das principais autoestradas digitais do planeta. Esta nova fase traz oportunidades, mas coloca igualmente desafios consideráveis. O crescimento económico e a chegada de novos trabalhadores aumentam a pressão sobre a habitação. Encontrar casa a preços compatíveis com os rendimentos tornou-se uma preocupação para muitas famílias e para quem pretende fixar-se no concelho. Escolas, saúde, mobilidade, segurança e restantes serviços públicos enfrentam igualmente a necessidade de acompanhar uma população e uma atividade económica em crescimento. A cidade precisa de garantir que a dimensão dos investimentos realizados no seu território se traduza também numa melhoria efetiva da qualidade de vida de quem nela vive. Existe ainda o desafio ambiental. Sines concentra algumas das maiores infraestruturas industriais e energéticas de Portugal e encontra-se simultaneamente junto de uma das zonas costeiras de maior valor natural do país. Conciliar indústria, porto, produção energética, turismo, pesca e proteção ambiental continuará a ser uma das questões fundamentais das próximas décadas. Porto Covo representa particularmente bem esse equilíbrio. A freguesia mantém uma identidade própria, fortemente associada ao mar, às praias, ao turismo e à paisagem do litoral, enquanto a poucos quilómetros se desenvolve um dos maiores polos industriais e logísticos nacionais. O futuro do concelho dependerá também da capacidade de preservar essa diversidade. Ao olhar para toda a história de Sines percebe-se, contudo, que a mudança não é propriamente uma novidade. Os romanos aproveitaram este litoral para atividades marítimas e produção de preparados de peixe. Na Idade Média, a importância do porto contribuiu para o crescimento da povoação e para a conquista da autonomia municipal. No século XV nasceu aqui Vasco da Gama, que ficaria para sempre associado à abertura da rota marítima para a Índia. Durante gerações, pescadores fizeram da baía o centro da economia local. Depois chegaram a cortiça, as conservas, o caminho de ferro e, finalmente, a revolução industrial dos anos 70. O porto de águas profundas trouxe os petroleiros, a refinaria e a petroquímica. O Terminal XXI trouxe os grandes porta-contentores e colocou Sines nas rotas do comércio global. Agora chegam os cabos submarinos, os centros de dados, as novas energias e a Inteligência Artificial.

Mudaram as embarcações, as indústrias, as tecnologias e a própria dimensão da cidade, mas existe um elemento que atravessa praticamente toda esta história: o Atlântico. Foi o mar que alimentou os primeiros habitantes, protegeu e ameaçou a vila, levou Vasco da Gama para a história, sustentou gerações de pescadores, justificou a construção do grande porto e abriu Sines ao comércio mundial. Hoje, é também através dele que chegam navios gigantes e cabos que transportam dados entre continentes. Mais de dois mil anos depois dos primeiros vestígios conhecidos de ocupação deste território, Sines continua a fazer aquilo que sempre fez: Olhar para o mar e encontrar nele uma parte importante do seu futuro.