Sobre Porto Covo.

Parte I — Antes de Porto Covo: Ilha do Pessegueiro e as origens antigas.

Muito antes de Porto Covo existir como povoação, este troço da costa alentejana já era conhecido e utilizado pelo ser humano. A explicação encontra-se em grande parte na própria geografia: pequenas enseadas protegidas, abundância de recursos marítimos e a presença da Ilha do Pessegueiro criavam condições favoráveis à pesca, à navegação e à permanência de comunidades junto ao litoral.

É precisamente na Ilha do Pessegueiro que se encontram alguns dos testemunhos arqueológicos mais importantes desta história antiga. Apesar de atualmente ser sobretudo conhecida pela paisagem e pelas fortificações que dominam a ilha e a costa em frente, as escavações arqueológicas demonstraram que aquele pequeno território foi utilizado muito antes do aparecimento da atual aldeia de Porto Covo. A presença romana assume particular importância. Durante o período romano existiram na ilha estruturas relacionadas com o aproveitamento dos recursos marítimos, nomeadamente instalações associadas à preparação e conservação de pescado. Esta atividade fazia parte de uma economia costeira bastante mais vasta que deixou vestígios em diferentes pontos do litoral alentejano, incluindo Sines. O peixe capturado no Atlântico podia ser preparado através da salga e transformado em produtos destinados ao consumo e à comercialização, demonstrando que este litoral estava integrado em circuitos económicos há cerca de dois mil anos.

A Ilha do Pessegueiro não era, portanto, apenas um pequeno pedaço de terra isolado ao largo da costa. A sua posição oferecia proteção natural e condições favoráveis à utilização marítima da zona. Junto à ilha e no canal que a separa do continente existem ainda vestígios arqueológicos que, ao longo do tempo, deram origem a diferentes interpretações e até à tradição de que teria existido uma ligação artificial entre a ilha e terra firme. A arqueologia confirma a importância do local, embora seja necessário distinguir os vestígios efetivamente identificados das histórias que foram crescendo em torno deles ao longo dos séculos. Com o desaparecimento do domínio romano, a informação sobre esta zona torna-se muito mais escassa. O litoral continuou, porém, a ser frequentado por populações que dependiam da pesca, da agricultura e dos recursos naturais existentes nas proximidades. Durante muitos séculos não existiu aqui uma povoação com a dimensão ou organização urbana de Porto Covo atual. O território era essencialmente rural e marítimo, pontuado por pequenas comunidades e locais de abrigo utilizados por pescadores e navegadores. O próprio nome Porto Covo está ligado às características naturais deste litoral. A palavra “covo” encontra-se associada à ideia de uma reentrância ou abrigo, descrevendo bem o pequeno porto natural protegido pelas formações costeiras. Muito antes das ruas brancas e azuis que hoje caracterizam a aldeia, era precisamente esta capacidade de oferecer algum abrigo às pequenas embarcações que dava importância ao local. Mas o mar que garantia alimento e permitia a navegação representava também uma ameaça.

Durante a Idade Média e, sobretudo, nos séculos seguintes, a costa portuguesa esteve exposta a ataques de corsários e piratas. Pequenas povoações e embarcações eram particularmente vulneráveis e a necessidade de vigiar e defender este litoral tornar-se-ia progressivamente mais importante. Foi essa preocupação que, séculos depois da presença romana, voltou a colocar a Ilha do Pessegueiro no centro da história deste território. A Coroa portuguesa acabaria por escolher a ilha e a costa situada em frente para instalar um sistema defensivo destinado a proteger a enseada e controlar a navegação. Surgiriam então as fortificações que ainda hoje fazem parte da paisagem de Porto Covo. A aldeia que conhecemos ainda demoraria bastante tempo a nascer. Antes de Jacinto Fernandes Bandeira, antes da Praça Marquês de Pombal e antes do traçado geométrico das suas ruas, a história deste lugar já tinha atravessado muitos séculos.

Porto Covo começou primeiro como território marítimo: Uma sucessão de pequenas enseadas, campos junto ao Atlântico e uma ilha que, desde a Antiguidade, testemunhava a passagem e a permanência do ser humano nesta costa.

Parte II — Entre corsários e fortalezas: a defesa da costa.

Durante os séculos XVI e XVII, o litoral português enfrentou uma ameaça que marcou profundamente a vida das comunidades costeiras: os ataques de corsários e piratas. Embarcações eram capturadas, bens saqueados e habitantes das povoações junto ao mar podiam ser levados como prisioneiros. A costa alentejana, extensa, pouco povoada e com numerosas pequenas enseadas onde era possível desembarcar, encontrava-se particularmente exposta.

A zona de Porto Covo e da Ilha do Pessegueiro não era exceção. A pequena enseada que oferecia abrigo aos pescadores podia também ser utilizada por embarcações hostis, tornando necessário reforçar a vigilância daquele troço do litoral. No final do século XVI, durante o período em que Portugal se encontrava sob a Coroa espanhola, surgiu um projeto ambicioso para a Ilha do Pessegueiro. Pretendia-se aproveitar as condições naturais do local e criar uma estrutura portuária protegida, acompanhada por fortificações capazes de defender a entrada e controlar a navegação. O arquiteto e engenheiro militar italiano Filippo Terzi, que trabalhou ao serviço da Coroa portuguesa, esteve ligado aos primeiros projetos de fortificação do local. As obras começaram no final do século XVI, mas avançaram com dificuldades e sofreram sucessivas interrupções. A dimensão do projeto, as condições do terreno e as mudanças políticas e militares impediram que a ideia inicial fosse concretizada na totalidade. Ainda assim, a importância estratégica da zona não desapareceu.

No século XVII, sobretudo no contexto que se seguiu à Restauração da Independência de Portugal em 1640, a defesa do litoral voltou a assumir particular importância. Portugal precisava de proteger a costa e reforçar posições que pudessem impedir desembarques ou ataques inimigos. Foi neste período que o sistema defensivo do Pessegueiro ganhou a configuração cujos vestígios chegaram aos nossos dias. De um lado, na própria Ilha do Pessegueiro, foi construída uma fortificação. Do outro, em terra firme, ergueu-se o forte que atualmente domina a Praia da Ilha do Pessegueiro. As duas estruturas deveriam funcionar de forma complementar, controlando o pequeno canal existente entre a ilha e o continente e protegendo a enseada. A posição permitia observar uma extensa área marítima e dificultar a aproximação de embarcações inimigas. O projeto nunca transformou Porto Covo no grande porto que alguns planos antigos chegaram a imaginar, mas deixou uma marca permanente na paisagem. As ruínas existentes na ilha e o forte situado em terra continuam a recordar uma época em que a defesa contra ataques marítimos era uma preocupação constante das populações costeiras. A presença militar também demonstra que, mesmo antes de existir uma povoação organizada, este pequeno ponto da costa já possuía importância estratégica. Para os habitantes dispersos pela região e para os pescadores que utilizavam as enseadas, o Atlântico continuava a representar duas realidades inseparáveis. Era fonte de alimento e comunicação, mas também a direção de onde podia surgir o perigo. Durante gerações, observar o horizonte fazia parte da vida de quem habitava esta costa. Com o passar do tempo, a ameaça dos ataques marítimos diminuiu e as fortificações perderam progressivamente a sua função militar. A pequena enseada continuou, porém, a ser utilizada por pescadores e embarcações, enquanto nas terras próximas permaneciam comunidades dedicadas à agricultura e às atividades marítimas.

No século XVIII, aquele lugar continuava longe de possuir a organização urbana que hoje associamos a Porto Covo. Existiam o porto natural, algumas construções e uma população reduzida e dispersa. Isso estava prestes a mudar. Na segunda metade do século XVIII, um dos homens de negócios mais influentes do seu tempo percebeu o potencial daquele pequeno porto e decidiu criar ali uma povoação planeada. Chamava-se Jacinto Fernandes Bandeira e a sua intervenção transformaria definitivamente Porto Covo, dando origem às ruas, à praça e à estrutura urbana que ainda hoje definem o coração da aldeia.

Parte III — Jacinto Fernandes Bandeira e o nascimento de Porto Covo.

Na segunda metade do século XVIII, Porto Covo era ainda um pequeno lugar junto ao mar, habitado por poucas famílias e utilizado sobretudo por pescadores. Existia um porto natural protegido pela costa, mas estava muito longe da povoação organizada que hoje conhecemos. A grande mudança começou com Jacinto Fernandes Bandeira, comerciante enriquecido e figura influente da sociedade portuguesa da época, que percebeu as potencialidades daquele pequeno ponto do litoral alentejano. Em 1784, Fernandes Bandeira tornou-se senhor de Porto Covo e iniciou um projeto destinado a desenvolver o local, promover o seu porto e criar uma nova povoação. A ambição ultrapassava a simples construção de algumas casas. Porto Covo deveria transformar-se numa comunidade organizada, capaz de atrair população e apoiar as atividades marítimas, comerciais e agrícolas da região.

Foi neste contexto que nasceu o desenho urbano que ainda hoje distingue o centro histórico da aldeia. Em vez de crescer de forma irregular, acompanhando caminhos antigos ou a disposição espontânea das habitações, Porto Covo foi planeado segundo uma malha geométrica, característica das ideias urbanísticas portuguesas do final do século XVIII. As ruas foram traçadas de forma regular e organizadas em torno de uma praça central, atualmente denominada Praça Marquês de Pombal. O modelo recorda, numa escala muito menor, alguns dos princípios utilizados na reconstrução da Baixa de Lisboa depois do terramoto de 1755: Organização, simetria e racionalidade do espaço urbano. No centro desta composição surgiu a praça que continua a ser o coração de Porto Covo, rodeada pelas características construções de pequena dimensão que ajudaram a formar a imagem arquitetónica da povoação. A igreja, dedicada a Nossa Senhora da Soledade, tornou-se também um dos elementos centrais da nova comunidade. O desenvolvimento pretendido por Jacinto Fernandes Bandeira estava diretamente relacionado com o mar. O pequeno porto deveria servir de apoio à navegação e permitir o escoamento de produtos da região, enquanto a pesca continuava a sustentar parte importante da população. Havia mesmo a ambição de dar ao porto uma importância comercial bastante superior à que acabaria por alcançar. As condições naturais e o relativo isolamento do território, contudo, limitaram parte desses planos. Ainda assim, Porto Covo cresceu. A intervenção de Fernandes Bandeira deixou uma marca tão profunda que a própria Coroa reconheceu a sua ligação ao território.

Em 1805, durante o reinado de D. João, então Príncipe Regente, Jacinto Fernandes Bandeira recebeu o título de Barão de Porto Covo da Bandeira. O comerciante que algumas décadas antes tinha encontrado um pequeno núcleo costeiro passava assim a transportar no próprio título o nome da povoação que ajudara a desenvolver. O projeto não transformou Porto Covo num grande centro portuário, mas conseguiu algo que acabaria por sobreviver durante mais de dois séculos: criou uma identidade urbana muito própria. A praça, as ruas direitas, as casas de pequena escala e a relação próxima entre a povoação e o oceano permanecem como herança daquele período. No início do século XIX, Porto Covo apresentava já uma estrutura muito mais próxima daquela que reconhecemos atualmente. Continuava pequena, relativamente isolada e profundamente dependente do mar e da terra, mas tinha deixado de ser apenas um conjunto disperso de habitantes junto a uma enseada. Tinha uma praça, ruas planeadas, igreja e uma comunidade progressivamente consolidada.

Nas décadas seguintes, porém, os grandes sonhos comerciais dariam lugar a uma realidade bastante mais simples. Durante grande parte dos séculos XIX e XX, Porto Covo viveria sobretudo do trabalho dos seus pescadores, agricultores e das famílias que fizeram daquela pequena povoação branca junto ao Atlântico a sua casa.

Parte IV — Uma aldeia de pescadores entre o mar e a terra.

Durante grande parte dos séculos XIX e XX, Porto Covo permaneceu uma pequena povoação onde a vida decorria ao ritmo do mar e da terra. Os grandes planos comerciais imaginados no tempo de Jacinto Fernandes Bandeira não transformaram o pequeno porto num centro marítimo de grande dimensão e a aldeia conservou durante muitas décadas uma população reduzida, relativamente isolada e profundamente dependente dos recursos existentes à sua volta.

A pesca tornou-se uma das imagens mais características de Porto Covo. Pequenas embarcações saíam das enseadas da costa e regressavam com o pescado que sustentava numerosas famílias. Num litoral recortado por pequenas praias e falésias, os pescadores aprenderam a conhecer cada entrada, cada rocha e cada mudança do mar. A atividade era exigente e perigosa, mas fazia parte de uma tradição transmitida entre gerações. Em terra, a agricultura e a criação de animais completavam a economia familiar. Os campos em redor da povoação produziam cereais e outros produtos agrícolas e muitas famílias dividiam o trabalho entre aquilo que conseguiam retirar da terra e aquilo que o Atlântico permitia trazer para casa. Porto Covo vivia assim entre dois mundos que durante muito tempo foram inseparáveis: o campo alentejano e o oceano. O isolamento condicionava profundamente o quotidiano. As deslocações até Sines e outras localidades eram demoradas e as comunicações muito diferentes das atuais. Muitos bens eram produzidos localmente ou chegavam através de pequenos circuitos comerciais. A dimensão reduzida da povoação criava também uma comunidade onde praticamente todos se conheciam e onde as relações familiares, a vizinhança e a entreajuda assumiam particular importância.

A Praça Marquês de Pombal continuava a funcionar como centro da vida local. Em redor da igreja e das pequenas casas desenvolviam-se os momentos religiosos, sociais e comerciais da aldeia. O traçado geométrico criado no final do século XVIII permaneceu praticamente intacto, ajudado precisamente pelo crescimento lento de Porto Covo. Aquilo que durante muitos anos poderia parecer uma limitação acabaria, mais tarde, por tornar-se uma das suas maiores riquezas: o centro histórico conseguiu conservar uma escala e uma identidade arquitetónica muito próprias. O século XX trouxe gradualmente melhorias nas acessibilidades, nos serviços e nas condições de vida, mas Porto Covo continuou durante bastante tempo distante dos grandes processos de urbanização que transformavam outras zonas do litoral português.

Mesmo quando Sines começou a mudar radicalmente com a instalação do complexo industrial e portuário na década de 1970, Porto Covo manteve uma realidade bastante diferente. A industrialização do concelho aproximou novas infraestruturas e trouxe profundas mudanças económicas à região, mas a povoação continuou essencialmente ligada à pesca, à agricultura e, progressivamente, ao turismo. A preservação de grande parte da costa a sul de Sines tornar-se-ia decisiva para o futuro de Porto Covo. Enquanto noutras regiões portuguesas o litoral era ocupado por grandes urbanizações, hotéis e construção intensiva, esta zona conservou extensas áreas naturais, praias encaixadas entre falésias e uma paisagem relativamente pouco alterada. Essa diferença começou lentamente a atrair visitantes. Primeiro chegaram sobretudo famílias e veraneantes portugueses que procuravam praias tranquilas e uma aldeia ainda afastada dos grandes destinos turísticos. Algumas casas passaram a ser utilizadas durante o verão, surgiram pequenos estabelecimentos ligados à restauração e ao alojamento e Porto Covo começou a adquirir uma segunda identidade, sem abandonar imediatamente a primeira. Continuava a ser uma terra de pescadores, mas começava também a tornar-se uma terra procurada por quem vinha de fora. A cultura popular ajudou igualmente a projetar o nome da aldeia para além da região.

Em 1987, Rui Veloso lançou a canção “Porto Covo”, com letra de Carlos Tê, transformando o nome desta pequena localidade alentejana numa referência conhecida em todo o país. Para muitos portugueses que nunca tinham visitado a aldeia, Porto Covo passou primeiro a existir através da música e da imagem de um lugar junto ao mar. No final do século XX, a mudança tornava-se cada vez mais evidente. As antigas atividades continuavam presentes, mas o turismo ganhava importância e as praias atraíam cada vez mais visitantes. O isolamento que durante gerações tinha condicionado o desenvolvimento da aldeia ajudara, paradoxalmente, a preservar aquilo que agora despertava interesse: as casas brancas, a praça, as pequenas ruas, as falésias, as praias e uma costa ainda marcada pela natureza. Porto Covo estava prestes a deixar de ser apenas uma pequena aldeia piscatória conhecida sobretudo na região. O lugar que durante séculos vivera discretamente entre o campo e o Atlântico começava a tornar-se um dos destinos mais conhecidos da costa alentejana.

Parte V — Do isolamento à descoberta turística de Porto Covo.

Nas últimas décadas do século XX, Porto Covo começou a viver uma transformação que mudaria profundamente a economia e o quotidiano da povoação. Durante gerações, o relativo isolamento tinha limitado o seu crescimento, mas ajudara também a preservar aquilo que agora começava a despertar cada vez mais interesse: uma pequena aldeia branca junto ao Atlântico, praias encaixadas entre falésias, um centro histórico de escala reduzida e uma extensa faixa costeira ainda pouco urbanizada. O turismo foi ganhando espaço progressivamente. Durante o verão, a população aumentava com a chegada de visitantes, muitos deles portugueses que procuravam no litoral alentejano uma alternativa aos destinos balneares mais urbanizados. As praias próximas da povoação, a Ilha do Pessegueiro e as numerosas pequenas enseadas existentes ao longo da costa tornaram-se os principais cartões de visita de Porto Covo. A própria estrutura da aldeia favorecia uma experiência diferente. A Praça Marquês de Pombal continuava a ser o centro da povoação, rodeada pelo casario tradicional, enquanto a proximidade do mar permitia chegar às praias praticamente a partir do centro. A identidade arquitetónica construída desde o final do século XVIII transformava-se agora também num dos principais elementos da sua atratividade turística. Em 1987, o nome Porto Covo ganhou uma projeção nacional difícil de imaginar algumas décadas antes. Rui Veloso lançou nesse ano a canção “Porto Covo”, com letra de Carlos Tê. O tema tornou-se uma das canções mais conhecidas da música portuguesa e contribuiu para associar definitivamente o nome da aldeia à imagem de um lugar especial junto ao mar. Porto Covo já existia como destino de veraneio, mas a música ajudou a levá-lo ao imaginário de milhões de portugueses. Outra decisão importante para o futuro da região surgiu com a proteção ambiental do litoral sudoeste. Em 1988 foi criada a Área de Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, posteriormente integrada no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. A classificação abrangeu uma extensa faixa costeira, incluindo o litoral de Porto Covo, procurando proteger valores naturais, paisagísticos e ecológicos num momento em que muitas outras zonas costeiras portuguesas estavam sujeitas a forte pressão urbanística. Esta proteção tornou-se determinante para aquilo que Porto Covo viria a ser. Limitou grandes transformações do litoral e ajudou a preservar praias, falésias, sistemas dunares e extensas áreas sem construção junto ao oceano. Ao mesmo tempo, colocou desafios ao crescimento da povoação, obrigando a procurar um equilíbrio entre desenvolvimento económico, construção, turismo e conservação da paisagem. Em 31 de dezembro de 1984, Porto Covo tinha já alcançado outro marco importante: foi criada a freguesia de Porto Covo, separando-se administrativamente da freguesia de Sines. A criação da nova freguesia reconhecia uma comunidade com identidade própria e permitia uma representação administrativa mais próxima da população. Porto Covo passava assim a constituir, juntamente com Sines, uma das duas freguesias do concelho. Durante os anos 90 e o início do século XXI, a transformação turística acelerou. A restauração ganhou peso, surgiram novos alojamentos e muitas casas passaram a funcionar como residências de férias. A época balnear tornou-se cada vez mais importante para a economia local e Porto Covo começou a receber visitantes não apenas de outras regiões portuguesas, mas também do estrangeiro. O crescimento do turismo pedestre trouxe posteriormente uma nova dimensão. A criação e divulgação da Rota Vicentina, com percursos que atravessam esta costa, colocou Porto Covo numa das principais redes de turismo de natureza do sudoeste português. Caminhantes de diferentes nacionalidades passaram a percorrer os trilhos entre falésias e praias, prolongando a procura para além dos meses tradicionais de verão. O turismo alterou inevitavelmente a estrutura económica e social da freguesia. As atividades tradicionais, particularmente a pesca e a agricultura, perderam parte do peso que tinham tido durante gerações, enquanto restauração, alojamento, comércio e serviços relacionados com os visitantes assumiram uma importância crescente. O valor das casas e dos terrenos aumentou e a procura por segundas habitações e alojamento turístico criou novas oportunidades, mas também novos problemas para quem pretendia viver permanentemente na freguesia. Porto Covo tinha conseguido evitar a transformação numa grande estância balnear, mas já não era a pequena aldeia relativamente desconhecida de décadas anteriores. A imagem das casas brancas e azuis, da praça, da Ilha do Pessegueiro e das praias tornou-se reconhecida em todo o país. O desafio deixava de ser simplesmente dar a conhecer Porto Covo. Passava a ser outro, bastante mais difícil: como receber cada vez mais pessoas sem perder aquilo que fez com que tantas pessoas quisessem conhecer Porto Covo?

Parte VI — Porto Covo no século XXI: Preservar a identidade perante o crescimento.

Porto Covo chegou ao século XXI profundamente diferente da pequena aldeia piscatória que durante gerações viveu relativamente isolada junto ao Atlântico. O mar continua presente, as casas brancas e azuis continuam a marcar a paisagem e a Praça Marquês de Pombal permanece como o coração da povoação, mas a economia e o quotidiano mudaram de forma significativa.

O turismo tornou-se uma das principais atividades da freguesia e Porto Covo passou a ser conhecido muito para além do concelho de Sines. Durante os meses de verão, milhares de visitantes procuram as praias, restaurantes, alojamentos e ruas da aldeia, provocando uma enorme diferença entre a tranquilidade do inverno e a intensidade da época balnear. Praias como a Praia Grande, Pequena, Buizinhos, Samoqueira e a zona da Ilha do Pessegueiro ajudaram a consolidar Porto Covo como um dos destinos mais procurados da costa alentejana. A integração deste litoral no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina tornou-se simultaneamente uma proteção e uma responsabilidade. Grande parte daquilo que distingue Porto Covo de outros destinos costeiros portugueses resulta precisamente da preservação da paisagem.

Entre Sines e Porto Covo e, sobretudo, para sul da aldeia, continuam a existir quilómetros de falésias, pequenas praias e áreas praticamente sem construção junto ao oceano. Essa paisagem tornou-se um dos principais recursos económicos da freguesia, mas é também um património natural que precisa de ser protegido. O crescimento do turismo trouxe novas oportunidades. Restaurantes, cafés, alojamentos, comércio e atividades relacionadas com o mar e a natureza criaram emprego e permitiram que muitas famílias encontrassem novas fontes de rendimento. A Rota Vicentina ajudou igualmente a reduzir alguma da dependência dos meses de verão, trazendo caminhantes nacionais e estrangeiros durante outras épocas do ano. Ao mesmo tempo, a popularidade crescente trouxe problemas semelhantes aos sentidos noutros destinos turísticos. A procura de casas para férias, segunda habitação e alojamento turístico aumentou a pressão sobre o mercado imobiliário.

Para quem pretende viver permanentemente em Porto Covo, encontrar habitação a preços compatíveis com os rendimentos locais tornou-se um desafio cada vez mais importante. A forte sazonalidade cria também dificuldades próprias. Durante o verão, a população presente aumenta muito, colocando pressão sobre estacionamento, trânsito, limpeza, abastecimento, segurança e restantes serviços. No inverno, a realidade muda completamente e muitos negócios enfrentam uma procura bastante menor. Encontrar um equilíbrio entre estas duas realidades é um dos desafios permanentes da freguesia. Existe ainda outra questão fundamental: o crescimento urbano. Porto Covo deve grande parte da sua identidade à pequena escala do seu núcleo histórico, ao traçado geométrico criado no final do século XVIII e à relação visual entre as casas e o oceano. Qualquer expansão coloca, por isso, uma questão que acompanha a povoação há várias décadas: como permitir novas habitações, equipamentos e atividade económica sem descaracterizar aquilo que torna Porto Covo diferente? A pesca, embora já não tenha o peso económico de outros tempos, continua a fazer parte da memória e da identidade local. O pequeno porto, as embarcações e as famílias historicamente ligadas ao mar recordam que Porto Covo não nasceu como destino turístico.

Muito antes dos alojamentos, das esplanadas e dos visitantes, existiram gerações que enfrentaram diariamente o Atlântico para garantir o sustento das suas famílias. Preservar essa memória é também preservar Porto Covo. A freguesia mantém ainda uma relação particular com Sines. Faz parte de um concelho profundamente marcado pelo maior complexo industrial e portuário do país, mas apresenta uma realidade quase oposta. A poucos quilómetros das grandes infraestruturas energéticas, industriais e logísticas encontra-se uma povoação cuja principal riqueza está precisamente na paisagem, nas praias, no turismo e na dimensão humana do seu centro histórico. Essa diferença é uma das características mais singulares do concelho. O futuro de Porto Covo dependerá, em grande medida, da capacidade de manter esse equilíbrio. O turismo continuará provavelmente a desempenhar um papel central, mas o desenvolvimento terá de conviver com a proteção ambiental, com a necessidade de habitação para residentes, com a preservação do património e com a manutenção de uma comunidade viva durante todo o ano.

Porque Porto Covo é mais do que as fotografias de verão, as praias ou a canção que tornou o seu nome conhecido em todo o país. A sua história começou muito antes da aldeia atual, passou pela presença romana na Ilha do Pessegueiro, pelas fortificações erguidas para defender a costa, pelo projeto de Jacinto Fernandes Bandeira e por sucessivas gerações de pescadores e agricultores. Mais de dois séculos depois da criação da povoação planeada que deu forma ao atual centro histórico, Porto Covo enfrenta um desafio diferente dos seus antepassados.

Já não precisa de ser descoberto. Precisa de conseguir crescer sem deixar de ser Porto Covo.