
O que aconteceu recentemente em Almada deve servir de alerta. Não porque Sines tenha exactamente o mesmo sistema, mas porque ficou claro que não é preciso deixar de existir água para que ela falte nas torneiras.
Basta que as captações, os reservatórios e a rede não consigam acompanhar um pico de consumo. Em Sines, o abastecimento à população assenta em várias captações subterrâneas e foram feitos investimentos no reforço das reservas e das infraestruturas. Isso reduz o risco, mas não o elimina.
O crescimento populacional, a actividade económica, o turismo e os períodos de calor extremo aumentam a pressão sobre um sistema que não é ilimitado. A água subterrânea depende da reposição dos aquíferos, da qualidade das captações e da capacidade de bombagem, armazenamento e distribuição.
É em Porto Covo que surgem as maiores dúvidas. Durante o verão, a população aumenta significativamente e o consumo dispara. Há mais alojamentos, restauração, regas, piscinas e maior pressão sobre a rede. O recurso, em anos anteriores, ao transporte de água em camiões-cisterna mostra que esta vulnerabilidade não é apenas teórica. Foram anunciadas novas captações, condutas e intervenções na ligação entre São Torpes e Porto Covo. São obras importantes, mas falta perceber se são suficientes para responder aos picos actuais e ao crescimento previsto para os próximos anos.
A população deveria conhecer dados simples: qual é a capacidade diária das captações, qual é a autonomia dos reservatórios, quanto se perde na rede e qual é o consumo nos dias de maior pressão.Na cidade de Sines, uma falha generalizada semelhante à de Almada parece menos provável. Em Porto Covo, o risco é maior. E basta uma avaria, uma falha eléctrica prolongada ou vários dias de consumo excepcional para colocar o sistema em dificuldade.
A lição de Almada é clara: os sistemas de abastecimento podem entrar em ruptura antes de a população perceber que existe um problema.Sines tem condições para evitar esse cenário. Mas confiança não chega. É preciso planeamento, manutenção, transparência e um plano de contingência capaz de responder aos dias em que tudo é levado ao limite.
Autor: Joel Soares
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