Lado B: “Sines: do maior porto do país à capital portuguesa da aquacultura? E a Pesca?”

Quando se fala no futuro da Economia do Mar em Portugal, Sines surge quase sempre associado ao porto, à energia, à indústria ou aos centros de dados. No entanto, existe outro sector com potencial para transformar profundamente a economia local nas próximas décadas: a aquacultura.

A recente aproximação entre a aicep Global Parques e a Associação Portuguesa de Aquacultores demonstra que Sines começa a ser visto como um território com condições únicas para acolher investimentos nesta área. Na minha opinião, o concelho reúne um conjunto de vantagens difíceis de encontrar noutro ponto do país: uma costa profunda, boa renovação das águas, uma localização estratégica, um porto de águas profundas, uma plataforma logística de excelência, infraestruturas industriais, acessos ferroviários e rodoviários e uma crescente capacidade tecnológica. Tudo isto cria as condições ideais para o desenvolvimento de projetos de aquacultura em mar aberto, capazes de abastecer o mercado nacional e de exportar para o resto da Europa.

Mas há uma condição que nunca pode ser esquecida: o futuro da aquacultura em Sines não pode ser construído à custa dos pescadores. São eles que, ao longo de gerações, fizeram do mar a sua forma de vida, conhecem como ninguém esta costa e continuam a desempenhar um papel essencial na economia e na identidade do concelho. A pesca enfrenta hoje desafios cada vez maiores, desde a redução de alguns recursos às alterações climáticas, ao aumento dos custos de operação e às crescentes exigências ambientais. Em vez de abandonar este sector, é precisamente agora que importa protegê-lo e ajudá-lo a adaptar-se. A aquacultura não deve substituir a pesca tradicional, mas antes complementá-la, criando novas oportunidades de rendimento, emprego e fixação de população ligada ao mar. Os pescadores devem ser chamados a participar neste processo, beneficiando de formação, acesso a investimento e novas oportunidades de negócio, para que possam também fazer parte desta transformação. Portugal continua a importar uma grande parte do peixe que consome, apesar de possuir uma das maiores zonas marítimas da Europa.

Isso demonstra que existe margem para crescer e Sines tem condições para liderar esse crescimento. Mais do que produzir peixe, o concelho pode desenvolver toda uma cadeia de valor ligada à Economia Azul, desde a investigação científica à produção de juvenis, passando pela inovação tecnológica, pela transformação, pela logística e pela exportação. Se existir visão estratégica, planeamento e capacidade para envolver todos os intervenientes, Sines pode afirmar-se como a capital nacional da aquacultura. Mas esse futuro só fará sentido se caminhar lado a lado com a pesca tradicional, valorizando quem sempre viveu do mar e garantindo que os pescadores de Sines continuam a ser uma parte essencial da identidade, da economia e do futuro marítimo do concelho.

Autor: João

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos seus leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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