D. Vataça Láscaris: A princesa bizantina que deixou a sua marca na história de Sines.

D. Vataça Láscaris, também conhecida como Betaça, Vetaça ou Vatatsa Láscaris, foi uma figura singular da história medieval portuguesa e ficou particularmente ligada à região de Sines e Santiago do Cacém.

Nascida por volta de 1270, descendia da família imperial dos Láscaris, sendo filha de Eudóxia Láscaris e neta do imperador bizantino Teodoro II Láscaris, que governou o Império de Niceia no século XIII. A sua família abandonou o Oriente na sequência das disputas políticas que marcaram o mundo bizantino e encontrou proteção no Ocidente, nomeadamente junto da corte de Aragão. Foi nesse contexto que Vataça se aproximou de D. Isabel de Aragão, futura Rainha Santa Isabel, acompanhando-a quando esta veio para Portugal para casar com o rei D. Dinis.

Vataça tornou-se uma das mulheres próximas da família real portuguesa e esteve também ligada à infanta D. Constança, filha de D. Dinis e de D. Isabel, acompanhando-a para Castela quando esta se casou com Fernando IV. Depois da morte de D. Constança, Vataça regressou a Portugal, mantendo uma posição de destaque na sociedade medieval e uma forte ligação à Ordem de Santiago e ao sul do país. Foi donatária da Comenda de Santiago do Cacém entre 1314 e 1336, ficando a sua presença associada ao património religioso daquela região.

É também neste período que surge a sua ligação à história de Sines. Segundo a tradição, durante uma viagem marítima para Portugal, o navio em que seguia terá sido surpreendido por uma forte tempestade. Perante o perigo, Vataça terá prometido à Virgem que mandaria construir uma capela no primeiro porto onde conseguisse chegar em segurança. Esse local teria sido Sines, estando esta promessa tradicionalmente associada à origem da primitiva ermida de Nossa Senhora das Salas, construída no final do século XIII ou início do século XIV. A pequena ermida medieval seria, cerca de dois séculos mais tarde, profundamente reedificada e ampliada por Vasco da Gama, dando origem, em grande medida, ao templo que chegou aos nossos dias.

A ligação de D. Vataça à fundação da ermida deve, contudo, ser entendida como uma tradição histórica, uma vez que os documentos primários conhecidos relativos à princesa não mencionam diretamente Sines. Ainda assim, esta narrativa atravessou os séculos e tornou-se parte importante da memória histórica e religiosa da cidade. A influência de Vataça na região estendeu-se também a Santiago do Cacém, onde ficou associada à Igreja Matriz e à tradição do Santo Lenho, uma relíquia que seria um fragmento da Cruz de Cristo. D. Vataça morreu em 1336, em Coimbra, e foi sepultada na Sé Velha daquela cidade, onde permanece o seu túmulo medieval.

Quase sete séculos depois da sua morte, a memória desta mulher de ascendência imperial bizantina continua particularmente presente no Litoral Alentejano. Em Sines, o seu nome permanece associado às origens de Nossa Senhora das Salas e a uma tradição que liga uma princesa vinda do outro extremo do Mediterrâneo à história religiosa e marítima da cidade.

Imagem: Criada por IA a partir de dezenas de imagens correspondentes ou atribuidas de D. Vataça (ou Betaça) Láscaris, para ficar com uma forma realista.

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