
Muito antes das actuais grandes salas de cinema, da grande invenção da televisão ou de outras formas de entretenimento digitais que hoje damos como certas e garantidas, os sineenses da época, tiveram contacto com uma das grandes novidades tecnológicas do início do século XX: imagens em movimento.
A cronologia histórica oficial do Município de Sines regista em 1909, a presença do primeiro animatógrafo em Sines, uma referência breve, mas que revela um episódio curioso da história da então pacata vila. Tinham passado somente 14 anos desde a célebre apresentação pública dos eternos irmãos Lumière, em Paris, em 1895, um dos grandes marcos do nascimento do cinema. O cinematógrafo chegaria a Portugal pouco depois, em 1896, e gradualmente as projeções começaram a sair dos grandes centros urbanos e a chegar a outras localidades.
É neste contexto que aparece Sines. Em 1909, quando ainda faltavam cinco anos para a restauração do concelho, os sineenses já tinham oportunidade de conhecer esta nova forma de espetáculo. Sobre esse primeiro animatógrafo permanecem, contudo, muitas perguntas: As fontes consultadas não permitem determinar com segurança quem o trouxe, onde foi instalado ou que filmes foram exibidos. Também não há elementos suficientes para afirmar que existisse nessa altura uma sala de cinema permanente.
Dez anos depois, porém, surge uma pista bastante mais concreta. Em 1919, há registo da passagem por Sines de um animatógrafo desmontável denominado Salão Pathé Aljustrelense. A informação é referida pelo investigador António Martins Quaresma, que aponta como fontes três edições do jornal “A Folha de Sines”, publicadas em 15 de agosto, 1 de setembro e 1 de dezembro daquele mesmo ano. O pormenor de ser desmontável ajuda a imaginar uma realidade muito diferente da atual: O cinema podia viajar de terra em terra, transportando consigo equipamentos e estruturas que eram montados temporariamente para receber o público. Terminado o período de exibições, tudo podia ser desmontado e seguir viagem. Não existem, até ao momento, elementos que permitam relacionar diretamente este Salão Pathé ( Na imagem) com o primeiro animatógrafo registado em Sines dez anos antes, pelo que seria incorreto afirmar que eram o mesmo.
O que sabemos é que o cinema chegou cedo à nossa vila e continuava presente em 1919. A comparação com outras datas da história local ajuda a perceber como isso aconteceu cedo: A instalação da iluminação elétrica no centro urbano é assinalada na cronologia apenas em 1933, enquanto o comboio chegaria a Sines em 1936. Ou seja, os sineenses viram cinema décadas antes da chegada do comboio à vila.
A história ganharia uma nova dimensão em 1932, com a abertura do Cine-Teatro Vasco da Gama, que se tornaria durante décadas uma referência cultural para várias gerações de sineenses. Em 1957, o espaço receberia inclusivamente um ecrã de maiores dimensões adaptado a formatos como CinemaScope e VistaVision. Em 29 de agosto de 1949, Sines conheceria ainda outra experiência cinematográfica, com o início dos espetáculos na Esplanada Alentejana. O antigo Cine-Teatro Vasco da Gama acabaria por ser demolido em 2000 e, naquele espaço, seria posteriormente construído o atual Centro de Artes de Sines.
Mas a relação de Sines com a sétima arte começara muito antes. Em 1909, através de um animatógrafo, o cinema já tinha chegado a Sines.
Imagem meramente representativa, derivada de relatos da época.