
Muito antes de a arqueologia existir como a conhecemos hoje, Sines foi palco de um episódio que acabaria por ganhar um lugar muito particular na história da arqueologia portuguesa. Tudo aconteceu a 7 de junho de 1591, junto à foz da Ribeira da Junqueira, na zona de São Torpes.
Na altura, ninguém estava propriamente à procura de vestígios pré-históricos. O objetivo era outro, o de ncontrar os restos mortais que a tradição atribuía a São Torpes. Durante essa procura foi aberta uma antiga sepultura, onde apareceram restos humanos e vários objetos, entre eles um pequeno recipiente de barro e uma placa de xisto decorada. Para quem participou na descoberta, aqueles objetos foram naturalmente interpretados à luz da tradição religiosa da época.
Só muito mais tarde se percebeu que o local era, na realidade, muito mais antigo e que os materiais encontrados estavam associados a um monumento funerário pré-histórico. O mais curioso é que o episódio não ficou apenas na memória popular. Houve um registo escrito da intervenção, feito em 1591 e posteriormente transcrito num códice de 1695, hoje conservado na Biblioteca Nacional de Portugal. A história atravessou os séculos e, já no início do século XX, chamou a atenção de José Leite de Vasconcelos.
Em 1905, durante uma passagem por Sines, o conhecido arqueólogo procurou os objetos retirados do local mais de 300 anos antes e conseguiu observar parte desse conjunto. Décadas mais tarde, o arqueólogo João Luís Cardoso voltou a estudar toda a documentação e concluiu que o episódio de São Torpes corresponde ao mais antigo registo conhecido da escavação de uma estação pré-histórica em Portugal. E existe ainda outro pormenor particularmente interessante. A placa de xisto encontrada em 1591 aparece desenhada no códice de 1695, numa representação que João Luís Cardoso considera, tanto quanto atualmente se conhece, a primeira representação de um objeto simbólico pré-histórico a nível mundial.
Junto à Ribeira da Junqueira ainda permanece a base de um antigo cruzeiro, erguido no século XVIII para assinalar o local tradicionalmente associado à sepultura de São Torpes. A história começou, portanto, com a procura das relíquias de um santo e acabou por revelar algo completamente diferente. Sem saberem exatamente o que tinham encontrado, aqueles homens abriram há mais de 430 anos um monumento com milhares de anos e deixaram um registo que hoje coloca Sines num dos primeiros capítulos da história da arqueologia em Portugal.
Imagem: O Arqueólogo Português, vol. XIX, de 1914, publicação do Museu Nacional de Arqueologia. As ilustrações são atribuídas a Guilherme Gameiro