
Tenho quase 80 anos e já vi Sines mudar muitas vezes, sempre a reinventar numa nova versão. Vi uma terra pequena, onde quase todos se conheciam, transformar-se num dos principais centros industriais e portuários do país. Vi chegarem as fábricas, crescer o porto, desaparecerem lugares que faziam parte da nossa vida e nascerem outros que hoje parecem ter existido desde sempre. Como nunca tive filiação partidária, sinto-me livre para me exprimir sem qualquer tipo de limitação.
Recordo com saudade a Sines dos anos 70 e 80. Recordo as ruas com menos carros, as conversas demoradas, as portas abertas e os dias em que o tempo parecia passar mais devagar. Também Porto Covo era diferente, mais pequeno, mais reservado e ainda distante da procura que hoje conhece. Quem viveu esses tempos guarda imagens, pessoas e momentos que nenhuma fotografia consegue reproduzir por inteiro. Mas a memória, por mais bonita que seja, também pode enganar-nos.
Nem tudo era melhor. Havia menos oportunidades, muitas carências e famílias obrigadas a procurar trabalho longe. A nostalgia ilumina aquilo de que sentimos falta e deixa frequentemente na sombra as dificuldades que enfrentávamos. Aquela Sines não voltará. E talvez o maior erro que podemos cometer seja passar o presente inteiro a tentar recuperar um passado que já terminou. Sines sempre viveu de transformações. A diferença é que agora tudo parece acontecer ao mesmo tempo e a uma velocidade para a qual a cidade não está minimamente preparada.
Crescem os investimentos, as empresas, os postos de trabalho, o centro portuário, o turismo e a procura por habitação. Crescem também o trânsito, os preços, a pressão sobre os serviços públicos e a sensação de que a terra onde vivemos começa a fugir-nos por entre os dedos. Mais do que discutir se queremos ou não esta mudança, precisamos de imaginar como vamos equilibrar esta explosão de tudo. Não podemos aceitar que Sines crie milhares de empregos e, ao mesmo tempo, não tenha casas para quem aqui trabalha.
Não podemos desejar que médicos, enfermeiros, professores, agentes de autoridade e outros profissionais essenciais se os seus salários não lhes permitem viver no concelho. Não podemos falar em futuro quando os nossos jovens são obrigados a partir porque não encontram uma habitação que consigam pagar. Uma cidade não cresce verdadeiramente apenas porque recebe milhões em investimento. Cresce quando essa riqueza melhora a vida das pessoas. Quando existem escolas preparadas, serviços de saúde capazes de responder, segurança, transportes, saneamento, equipamentos sociais e espaços públicos de qualidade.
Cresce quando quem cresceu desde pequeno aqui pode continuar aqui e quando quem chega encontra condições para fazer parte da comunidade. As grandes empresas não podem limitar-se a instalar os seus projetos, criar pressão sobre o território e deixar todas as consequências para a autarquia e para o Estado resolverem. Quem beneficia de Sines também deve contribuir para a habitação, para as infraestruturas e para a qualidade de vida de quem mantém esses investimentos a funcionar.
Também não podemos permitir que Porto Covo perca completamente a sua identidade. O turismo é importante, cria atividade e leva o nome da freguesia mais longe. Mas uma terra deixa de ser verdadeiramente sua quando os habitantes já não conseguem viver nela e as casas passam a existir apenas para quem vem de fora durante alguns dias por ano. Aos quase 80 anos, não tenho medo da mudança. Já passei por demasiadas para acreditar que tudo deve permanecer igual. Tenho, isso sim, receio da mudança sem planeamento, do crescimento sem equilíbrio e do progresso que esquece as pessoas. Não quero que Sines volte a ser o que era, porque sei que isso é impossível. Quero que não deixe de saber o que é, que os meus netos ainda saibam o que sentir Sines. Ainda podemos proteger a ligação ao mar, a memória dos bairros, o património, as relações entre as pessoas e esse sentimento difícil de explicar que nos faz reconhecer Sines como casa. Mas para isso é necessário planear antes de os problemas se tornarem irreversíveis.
Sines nunca mais vai ser a mesma. Nenhuma terra permanece igual depois de atravessar tantas mudanças. A verdadeira questão é saber se vamos deixar que o futuro simplesmente nos aconteça ou se teremos coragem para participar na sua construção. Já vi desaparecer muito da Sines que conheci. Não espero recuperar o passado, mas ainda espero que aqueles que vierem depois de nós possam viver aqui com dignidade e sentir que esta terra também lhes pertence. Talvez seja essa a melhor forma de respeitar aquilo que fomos, de não ficar preso à saudade, mas garantir que Sines continua a ser uma terra onde vale a pena viver.
Autor: António Paulo.
Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos seus leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.