
Durante décadas, a chegada do caminho de ferro foi um dos maiores desejos da população de Sines. Numa terra afastada dos principais centros e onde as comunicações dependiam sobretudo das estradas e das ligações marítimas, o comboio representava muito mais do que um novo meio de transporte. Era visto como uma porta aberta ao desenvolvimento, capaz de aproximar a vila do resto do país e facilitar a circulação de pessoas, correio e mercadorias.
A reivindicação começou ainda no século XIX, impulsionada pelo crescimento das indústrias da cortiça e das conservas de peixe. As unidades instaladas em Sines necessitavam de transportar a produção em maiores quantidades, mas o pequeno porto existente na época não conseguia responder a todas as necessidades. Desde 1874, a vila era servida por uma ligação regular de vapores entre Lisboa e o Algarve, com escala em Sines, mas esse serviço estava pensado sobretudo para assegurar as comunicações ao longo da costa e não resolvia o isolamento ferroviário do concelho. Em 1898, uma comissão encarregada de estudar a expansão da rede ferroviária ao sul do Tejo propôs a construção de um ramal até Sines. A ideia passava por ligar o porto à futura Linha do Sado, permitindo também servir Santiago do Cacém e facilitar o escoamento dos produtos agrícolas, industriais e mineiros da região.
O projeto foi integrado no plano ferroviário aprovado em 1902 e a sua construção chegou a ser autorizada em 1909. No entanto, as dificuldades económicas, a implantação da República e, mais tarde, a Primeira Guerra Mundial foram sucessivamente adiando a obra. A ligação ferroviária era defendida como uma oportunidade para toda a região. Além das conservas, da cortiça, dos cereais e das madeiras, existia a intenção de utilizar o porto de Sines para exportar as pirites extraídas nas minas de Aljustrel. Chegou mesmo a ser discutida uma linha que ligasse Sines a Beja, transformando o porto numa saída privilegiada para a produção do Baixo Alentejo. A ambição era grande, mas o dinheiro disponível era escasso e o projeto avançou lentamente. As obras começaram finalmente em 1919. Ainda assim, o caminho de ferro demoraria mais 17 anos a chegar a Sines. Em 1926, parte do percurso estava preparada para receber os carris, mas voltaram a faltar verbas. O primeiro troço, entre Ermidas-Sado e São Bartolomeu da Serra, entrou ao serviço em abril de 1927. A linha chegou depois a Santiago do Cacém, em junho de 1934, ficando por concluir a ligação final até Sines.
Enquanto os carris se aproximavam, começou a erguer-se a estação de Sines. O edifício, projetado por Ernesto Korrodi, seguia uma linguagem inspirada nas casas portuguesas dos séculos XVII e XVIII. Foi decorado com painéis de azulejos produzidos pela Fábrica Sant’Anna, representando atividades ligadas à pesca e à indústria, duas das principais bases da economia local. A estação não era apenas um lugar de passagem. Pela sua arquitetura e ornamentação, pretendia afirmar a importância de Sines e receber com dignidade quem chegava à vila.
A 14 de setembro de 1936, o longo tempo de espera terminou. A abertura do troço entre Santiago do Cacém e Sines completou finalmente a linha ferroviária. A Comissão Administrativa da Câmara Municipal, presidida por Mário Tavares, preparou cuidadosamente as comemorações. Foi fretado um comboio especial para transportar até Sines o ministro das Obras Públicas, o governador civil de Setúbal, Domingos Rodrigues Pablo e outras figuras ligadas ao processo. Também foram disponibilizados comboios a preços reduzidos, permitindo que mais pessoas participassem naquele dia histórico. Ao longo dos cerca de 16 quilómetros entre Santiago do Cacém e Sines, centenas de pessoas aguardaram junto à linha para ver passar o primeiro comboio. Vestidas com as melhores roupas, muitas famílias saudaram a composição enquanto esta avançava lentamente em direção à vila. Na estação, esperava-a uma multidão de vários milhares de pessoas. A chegada fez-se entre foguetes, morteiros e música.
A filarmónica da União Recreio e Sport Sineense apresentou-se com um novo fardamento azul, preparado especialmente para a ocasião. A avenida que ligava a estação ao centro da vila, hoje associada ao nome de Domingos Rodrigues Pablo, tinha recebido iluminação elétrica. Para muitos habitantes, aquele dia parecia anunciar uma nova época. O comboio chegava acompanhado pela eletricidade, pelo movimento e pela promessa de uma vila menos isolada. A cerimónia ficou registada em fotografias e num pequeno filme de propaganda da época. As imagens mostram a praia, o Castelo, a casa de Vasco da Gama, o Sanatório Pratz e a enorme concentração de pessoas junto da estação.
Com a entrada em funcionamento da linha, todos os comboios que terminavam em Santiago do Cacém passaram a seguir até Sines. Foi criada uma mala direta de correio com Lisboa e começaram a ser vendidos os chamados “bilhetes de banhos”, destinados às pessoas que pretendiam passar uma temporada junto ao mar. Podiam ser adquiridos nas estações de Lisboa, do Vale do Sado e da Linha do Sul, ajudando a promover Sines como destino balnear. O comboio alterou hábitos e aproximou famílias. Durante décadas, a estação recebeu trabalhadores, estudantes, visitantes e banhistas. Também permitiu transportar produtos locais e reforçou as ligações comerciais com outras zonas do país. Para várias gerações de sinienses, as partidas e chegadas ficaram associadas ao som das automotoras, ao movimento na gare e às despedidas feitas junto à plataforma. Por detrás desta conquista estiveram muitas pessoas que, ao longo dos anos, pressionaram governos e administrações para que o projeto não fosse abandonado. Entre elas encontravam-se Domingos Rodrigues Pablo, Ramos da Costa e António Jacinto Maria de Vilhena. Este último acompanhou de perto a campanha, publicou em 1937 uma obra dedicada à história do ramal e contribuiu com 500 escudos para as comemorações da inauguração. Também a escritora siniense Cláudia de Campos terá participado nas primeiras diligências, embora tenha falecido em 1916 e não tenha chegado a assistir à concretização do sonho. Algumas cartas que poderiam esclarecer melhor o seu envolvimento acabaram por desaparecer do Arquivo Municipal.
O serviço de passageiros manteve-se durante mais de meio século. Porém, a 2 de janeiro de 1990, a empresa Caminhos de Ferro Portugueses encerrou a circulação de passageiros na Linha de Sines, no âmbito de uma reestruturação da rede. A ferrovia continuou a desempenhar um papel essencial no transporte de mercadorias do porto e da zona industrial, mas deixou de servir diretamente a população. Mais de 36 anos depois, os comboios de mercadorias continuam a passar por Sines, transportando contentores e produtos ligados à atividade portuária e industrial.
Os passageiros, esses, nunca regressaram. A antiga estação permanece como testemunho de um tempo em que a chegada de uma locomotiva foi suficiente para levar milhares de pessoas à rua. Naquele dia de setembro de 1936, Sines não recebeu apenas um comboio. Recebeu a sensação de que ficava mais perto do país e de que o futuro acabava de entrar na estação.
Nota: A fotografia que acompanha este artigo foram captadas por José Guerreiro Aboim em 1936 e pertencem à coleção do seu filho, António Aboim.