Lado B: A indústria está a expulsar os trabalhadores de Sines?

Sines vive um paradoxo cada vez mais difícil de ignorar. É um dos territórios portugueses que mais investimento atrai, concentra o maior porto do país e prepara-se para receber novos projetos industriais, energéticos e digitais avaliados em milhares de milhões de euros.

Ao mesmo tempo, encontrar casa no concelho tornou-se quase impossível para muitos trabalhadores, jovens e famílias. A cidade cria emprego e chama pessoas, mas não consegue garantir que quem aqui trabalha também possa aqui viver.

A pergunta é provocadora, mas legítima: estará a indústria a expulsar os trabalhadores de Sines? Não são as fábricas, o porto ou os novos investimentos que colocam diretamente alguém fora da cidade. O problema está no desequilíbrio entre a rapidez com que chegam os projetos e os trabalhadores e a lentidão com que são criadas novas respostas habitacionais. Num concelho com cerca de 14 mil habitantes oficiais ( Já se sabe que são muitos mais), e pouca oferta, o aumento da procura faz subir os preços e deixa muitas famílias sem capacidade para competir.

Há estimativas que apontam para uma subida superior a 100% nas rendas em Sines entre 2017 e 2024. Alguns T1 são anunciados por valores entre 1.200 e 1.300 euros, enquanto determinados T2 podem atingir 1.400 ou 1.600 euros mensais. Estes preços não representam todo o mercado, mas mostram a dimensão da pressão existente. As dificuldades também são visíveis nas publicações que surgem nas redes sociais.

Num caso recente, visto nas redes sociais, um casal em que ambos trabalham procurava um T2 com uma renda máxima de 800 euros, explicando que pretendia apenas uma casa digna e compatível com os seus rendimentos. Os autores referiam encontrar valores de 1.500, 1.800 e até 2.000 euros. Noutro apelo, uma pessoa procurava com urgência um T0 ou T1, reconhecendo que encontrar casa em Sines “não está nada fácil”. Foi igualmente divulgada uma oferta de um T3 bem localizado, destinado a professores, alegadamente por 1.200 euros mensais e apenas durante parte do ano. Embora estes exemplos não permitam determinar os valores médios do mercado, mostram a escassez da oferta, a instabilidade dos contratos e a distância entre os preços pedidos e aquilo que muitas famílias conseguem pagar.

Para uma empresa que necessita de alojar trabalhadores especializados durante alguns meses, uma renda elevada pode ser considerada um custo do projeto. Para uma família dependente de um ou dois salários locais, é frequentemente incomportável. Algumas empresas procuram várias casas em simultâneo para alojar equipas deslocadas e, devido à sua maior capacidade financeira, conseguem assegurar imóveis antes de estes chegarem ao mercado tradicional.Esta necessidade é compreensível, mas, num mercado tão reduzido, cada casa destinada a uma equipa temporária representa menos uma possibilidade para quem procura residência permanente.

Muitos trabalhadores acabam por viver em Vila Nova de Santo André, Santiago do Cacém, Cercal do Alentejo, Grândola e noutras localidades, deslocando-se diariamente para Sines. A cidade beneficia do seu trabalho, mas perde a possibilidade de os transformar em residentes e famílias com raízes no concelho. O problema não afeta apenas a grande indústria. Atinge também quem assegura o funcionamento quotidiano da cidade: trabalhadores do comércio e da restauração, professores, enfermeiros, auxiliares, técnicos, funcionários municipais, forças de segurança e jovens em início de carreira. Quando estas pessoas não encontram casa, os serviços enfrentam dificuldades em recrutar e manter profissionais.

A habitação deixa então de ser apenas uma questão social e passa a condicionar a própria economia. A medida é relevante, mas confirma que a escassez de casas já interfere com a capacidade de atrair e fixar trabalhadores.O Governo anunciou igualmente a intenção de preparar um plano especial de investimento público para Sines, reconhecendo que os investimentos privados previstos, estimados em mais de 20 mil milhões de euros, aumentarão a pressão sobre a habitação e os serviços públicos.

O reconhecimento é importante, mas as respostas continuam a avançar muito mais lentamente do que os projetos industriais.Não se trata de rejeitar o investimento nem de responsabilizar quem chega para trabalhar. Sines precisa da indústria, do porto, das novas atividades económicas e das pessoas vindas de outras regiões e países. A questão é saber se esse desenvolvimento está a ser acompanhado por condições que permitam fixar população.A solução exige a participação do Estado, do Município e das grandes empresas. É necessário construir mais, mas também garantir que parte das novas casas fica protegida da especulação e destinada a residência permanente. Habitação pública, arrendamento acessível, cooperativas, custos controlados, recuperação de imóveis devolutos e cedência de terrenos em direito de superfície podem fazer parte da resposta.

A indústria não está, de forma consciente, a expulsar os trabalhadores de Sines. Mas o crescimento industrial, quando não é acompanhado por uma política de habitação com a mesma dimensão e urgência, acaba por produzir esse efeito. De que serve criar milhares de postos de trabalho em Sines se aqueles que os ocupam já não conseguem viver em Sines?

Autor: Sérgio Santos

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos seus leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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