Nossa Senhora das Salvas: A promessa feita no mar que Sines nunca esqueceu.

Na semana em que reabriu a Igreja de Nossa Senhora das Salas, após extenso periodo de recuperaçã, publicamos este artigo.

Há mais de sete séculos, muito antes de Vasco da Gama partir para a Índia e de Sines se transformar numa cidade portuária e industrial, uma violenta tempestade no mar terá dado origem a uma das mais antigas e marcantes lendas da história local: A fundação da primitiva Ermida de Nossa Senhora das Salas.

A tradição transporta-nos até ao final do século XIII. A bordo de uma embarcação que seguia em direção a Portugal encontrava-se D. Vataça Láscaris, princesa de origem bizantina que acompanhava Isabel de Aragão, a futura Rainha Santa Isabel, no seu percurso até à corte portuguesa. Durante a viagem, a embarcação terá sido surpreendida por uma tempestade. O mar revolto, o vento e a ameaça de naufrágio fizeram temer pela vida de todos os que seguiam a bordo.

Perante o perigo, D. Vataça terá feito uma promessa: Se conseguisse chegar a terra com vida, mandaria erguer uma capela dedicada à Virgem Maria no primeiro porto onde a embarcação encontrasse abrigo.A princesa transportaria também consigo uma relíquia do Santo Lenho, um fragmento que, segundo a tradição cristã, teria pertencido à cruz de Cristo. D. Vataça prometeu que a preciosa relíquia seria entregue ao castelo mais próximo do local onde desembarcasse.A tempestade acabou por acalmar e a embarcação encontrou refúgio na baía de Sines. Cumprindo a promessa feita em pleno mar, D. Vataça terá mandado construir, nos finais do século XIII ou no início do século XIV, uma pequena ermida dedicada a Santa Maria. O fragmento do Santo Lenho terá seguido para o Castelo de Santiago do Cacém, então o mais próximo de Sines.

A primeira ermida seria um edifício simples, de uma só nave, mas rapidamente se transformou num importante lugar de devoção. No seu interior existiria uma fonte considerada santa e, nas proximidades, uma nascente que a tradição passou a associar à própria princesa, ficando conhecida como Fonte de D. Betaça — outra das formas pelas quais Vataça Láscaris ficou conhecida.

Não existem documentos que permitam confirmar todos os episódios descritos pela lenda. A história foi transmitida ao longo de gerações, misturando acontecimentos possíveis, tradição religiosa e memória popular. A presença de D. Vataça em Portugal, porém, é histórica e está documentada. A princesa teve ligações à região, recebeu propriedades da Ordem de Santiago e ficou associada a diferentes lugares e tradições do litoral alentejano.

Com o passar dos séculos, a pequena ermida começou a revelar-se insuficiente e terá chegado ao século XV em estado de degradação. Seria então outra figura inseparável da história de Sines a dar-lhe uma nova dimensão: Vasco da Gama. Depois da viagem marítima à Índia, o navegador sineense decidiu mandar construir um templo maior junto da antiga ermida. A iniciativa encontrou resistência por parte da Ordem de Santiago, que tentou impedir as obras e defendia apenas a ampliação do edifício primitivo. Vasco da Gama acabou por levar o projeto por diante e, em 1529, a nova Igreja de Nossa Senhora das Salvas foi sagrada.Duas lápides colocadas junto ao portal, com as armas da família Gama, recordam a intervenção do navegador e identificam-no como responsável pela construção da nova igreja. O edifício recebeu um notável portal manuelino em pedra, tornando-se um dos mais importantes monumentos históricos e religiosos de Sines.

Também a origem do nome permanece envolvida em diferentes interpretações. “Salas” e “Salvas” foram sendo usadas ao longo dos séculos. Uma das versões relaciona a designação com a salvação de D. Vataça e das mulheres que a acompanhavam. Outra aponta para as salvas de artilharia que os navios de Vasco da Gama teriam disparado quando passavam diante da igreja. Existe ainda a hipótese de o nome resultar de uma transformação da palavra “salgas”, devido à antiga atividade de salga de peixe existente naquela zona da baía.Independentemente da verdadeira origem da designação, a ligação ao mar nunca desapareceu.

Nossa Senhora das Salvas tornou-se protetora dos pescadores e dos homens do mar. Durante séculos, sobreviventes de naufrágios ofereceram ex-votos em agradecimento pela proteção que acreditavam ter recebido. Outros devotos entregaram joias, peças de prata e vestidos bordados, formando progressivamente o Tesouro de Nossa Senhora das Salas. O templo atravessou guerras, tempestades e terramotos. Foi danificado pelo grande sismo de 1755, posteriormente reparado e enriquecido com azulejos representando episódios da vida da Virgem Maria. Em 1922, a igreja foi classificada como Monumento Nacional.

Ainda hoje, durante as festas de agosto, a imagem deixa o santuário e aproxima-se novamente do mar através das procissões terrestre e marítima. É um gesto que parece devolver a história ao ponto onde tudo terá começado. Entre a lenda e a história, permanece uma narrativa com mais de 700 anos: a de uma princesa bizantina cercada por uma tempestade, de uma promessa feita em alto-mar e de uma pequena ermida construída junto à baía de Sines.

Uma promessa que atravessou os séculos e que transformou Nossa Senhora das Salas num dos maiores símbolos da memória e da identidade sineenses.

Deixe um comentário