Hoje o ministro da Economia terá razão para amaldiçoar a paragem da refinaria de Sines para manutenção. Dois meses parecem ter sido suficientes para inverter a recuperação iniciada, a muito custo, no ano passado, e arrastar as exportações para um contributo negativo para o produto, o que acontece pela primeira vez desde o segundo trimestre de 2011.
O que os dados revelados pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE) – evolução da economia no primeiro trimestre e as exportações até Abril – ilustram é a grande dependência da economia portuguesa de uma empresa. Na década passada seria a Autoeuropa. Nesta década parece ser a Galp que substituiu o fabricante automóvel como maior exportador nacional.
Desde que em Março do ano passado entrou em operação o novo aparelho refinador, a empresa aumentou quase sempre o volume de vendas ao exterior, tendo consolidado a sua posição como líder nas exportações. No ano passado, as vendas de combustíveis da Galp, gasolina e gasóleo, representaram cerca de 10% do valor das exportações nacionais, tendo dado um contributo determinante para a dinâmica exportadora e para a retoma a partir do segundo semestre.
Este efeito começa a perder gás no trimestre que terminou em Fevereiro, com a primeira queda em termos homólogos nos valores vendidos, de 3%. As vendas quebram 30% em Março, reflectindo já o início da paragem de manutenção a partir da segunda semana daquele mês. Mas é em Abril que se sente o impacto máximo. No trimestre que terminou em Abril, as exportações de combustíveis afundam 55% face a igual período de 2013. O valor dos combustíveis cai para cerca de 5% das exportações totais, o que constitui o pior resultado deste sector desde Março de 2011. Com efeito, é necessário recuar cerca de três anos para encontrar um valor tão baixo de exportações. Esta queda também tem efeito positivo nas importações, que desceram 6,6%, uma vez que o petróleo refinado vem de fora. Mas o saldo final é negativo: as exportações registaram uma quebra mensal de 4,9% e baixaram 0,8% no trimestre que termina em Abril. O défice da balança comercial cresceu.
O impacto da paragem de Sines é visível nas contas nacionais do primeiro trimestre. Apesar da correcção em ligeira alta, mais 0,1 ponto percentual do que a estimativa rápida, o INE confirma uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,6% nos primeiros três meses do ano, face ao trimestre anterior.
O INE aponta como principal factor a queda das exportações, cujo contributo para a economia foi negativo em 1,6 pontos percentuais. Este resultado foi decisivo para a derrapagem da economia. O INE aponta ainda para o abrandamento do investimento no primeiro trimestre, depois da aceleração verificada nos últimos dois trimestres de 2013, muito influenciada pela componente automóvel e importação de aeronaves.
Foram assim as famílias a aguentar a economia no primeiro trimestre com o consumo privado a crescer 1,5%, sobretudo orientado para bens duradouros (ver texto do lado).
CONSEGUE A ECONOMIA RECUPERAR? O efeito da paragem da refinaria de Sines irá ainda afectar a performance da economia no segundo trimestre. A unidade da Galp retomou a produção no início de Maio e a expectativa já manifestada pelo presidente, Ferreira de Oliveira, é de que a empresa irá manter este ano o nível de exportações verificado no ano passado. Mas mesmo que assim seja, há outros sinais de alerta nas contas do primeiro trimestre e que apontam para a travagem no investimento, medido em formação bruta de capital fixo. Esta componente, que tem sido apontada como crítica para a retoma, cresceu apenas 1,7%, contra um progresso de 3,6% no trimestre anterior, e muito devido ao reforço de stocks.
Não é por isso líquido que a economia consiga recuperar a dinâmica de crescimento necessária para cumprir a meta de 1,2% prevista para este ano.
Do lado da Comissão Europeia as contas para o PIB português foram já refeitas, num “exercício mecânico”. A partir da queda de 0,7% do PIB no primeiro trimestre – que afinal foi de 0,6% – as últimas previsões de Bruxelas apontam para um crescimento de 1% em 2014. O factor decisivo estará porventura do lado do consumo .
Notícias de Sines com Ana Suspiro e Rodrigo Cabrita
