
É difícil atravessar o centro de Sines sem reparar no edifício Ancorope. Pela dimensão, pela localização e pelo número de famílias que ali encontraram casa ao longo de quase meio século, o prédio tornou-se uma das construções mais reconhecíveis e também provavelmente, uma das mais discutidas da mocidade.
Erguido durante a década de 1970, numa altura em que Sines começava a preparar-se para uma das maiores transformações económicas e demográficas da sua história, o edifício terá sido inicialmente pensado para um projecto turístico. A construção começou associada à Duratur e destinava-se, segundo testemunhos publicados ao longo dos anos, à criação de uma unidade semelhante a um aparthotel, com apartamentos de diferentes dimensões. Os planos iniciais seriam ambiciosos. Relatos de pessoas ligadas à obra referem a possibilidade de uma piscina panorâmica na cobertura, áreas de apoio, estruturas de segurança e soluções destinadas à evacuação dos pisos superiores. Alguns desses elementos nunca terão chegado a concretizar-se, enquanto outros foram alterados à medida que o empreendimento mudou de mãos e de finalidade.
São, contudo, informações provenientes sobretudo da memória de antigos trabalhadores e moradores, não existindo documentação pública facilmente acessível que permita confirmar todos os pormenores. O nome Ancorope terá surgido posteriormente, associado a António Conde Rosa Pereira, empresário que assumiu o empreendimento numa fase posterior. A designação é geralmente explicada como a conjugação das primeiras sílabas do seu nome: ANtónio, COnde, ROsa e PEreira.O edifício acabaria por abandonar a vocação turística e assumir uma utilização predominantemente habitacional. Os espaços foram transformados em fracções autónomas, incluindo apartamentos de pequena dimensão, adequados a trabalhadores deslocados, jovens casais e famílias que procuravam uma solução mais acessível no centro da cidade.
A mudança coincidiu com o crescimento acelerado de Sines, impulsionado pela construção do complexo industrial e portuário. A chegada de milhares de trabalhadores aumentou a procura por alojamento, num concelho que não estava preparado para responder, de um momento para o outro, a uma pressão habitacional dessa dimensão. Com oito pisos e cerca de 220 apartamentos, ( o número de 221 é repetidamente referido em registos e testemunhos locais), a Ancorope tornou-se uma das maiores concentrações residenciais do concelho. A existência de lojas e outros espaços no rés-do-chão reforçou a ideia de um edifício quase autónomo, onde a função habitacional convivia com actividades comerciais e serviços.
Durante décadas, o prédio desempenhou um papel que nem sempre é reconhecido no debate público, o de permitir alojar centenas de pessoas no centro de Sines, muitas delas com rendimentos modestos ou sem capacidade para entrar noutras zonas do mercado imobiliário. A Ancorope foi, para alguns, a primeira casa em Sines. Para outros, uma solução temporária que se tornou definitiva. Ali cresceram crianças, instalaram-se famílias e viveram trabalhadores ligados ao porto, à indústria, ao comércio e aos serviços. A história do edifício ficou, no entanto, marcada por problemas de conservação, dificuldades na gestão de um edifício de enorme dimensão e pela degradação de algumas áreas comuns.
Ao longo dos anos, a Ancorope foi também alvo de uma imagem pública negativa, de forma muito injusta, frequentemente construída a partir de episódios de insegurança, vandalismo ou comportamentos individuais que acabaram por atingir indiscriminadamente todos os moradores. Essa generalização sempre encontrou resistência dentro do próprio edifício. Em debates públicos realizados há mais de uma década, vários residentes lembraram que a Ancorope acolhia pessoas de diferentes profissões e condições sociais, rejeitando a ideia de que todo o prédio pudesse ser definido pelos problemas existentes numa parte da comunidade.
Mais recentemente, os elevadores tornaram-se o sinal mais visível das dificuldades enfrentadas pelos moradores. Num edifício com oito pisos, a avaria prolongada destes equipamentos tem consequências que vão muito além do incómodo. Em 2023, foi publicamente denunciada a existência de apenas um elevador operacional, também sujeito a avarias, depois de outro equipamento ter ficado inutilizado na sequência de um incêndio associado a um acto de vandalismo. A situação afectava sobretudo idosos, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, que podiam ficar praticamente impedidas de sair de casa. O problema voltou à discussão pública em Fevereiro deste ano. Uma manifestação convocada nas redes sociais para decorrer junto da Câmara Municipal de Sines não registou qualquer adesão à hora anunciada. Dois dias depois, o promotor afirmou que a iniciativa teria sido cancelada na sequência de uma alegada ameaça anónima e por razões de segurança. Não foi divulgada informação que permitisse confirmar se o caso chegou a ser formalmente comunicado às autoridades.
A escolha da Câmara como local do protesto levantou igualmente a questão das responsabilidades. A Ancorope é um edifício privado, pelo que a conservação das áreas comuns e dos equipamentos cabe aos proprietários e à administração do condomínio. A capacidade de intervenção directa do município é, por isso, limitada. Isso não significa, porém, que a dimensão social do problema possa ser ignorada. Quando a falta de um elevador deixa idosos ou pessoas com mobilidade condicionada retidos nos pisos superiores, a situação ultrapassa a normal gestão e passa a envolver questões de dignidade, segurança e protecção de residentes vulneráveis. A própria dimensão da Ancorope torna qualquer solução mais complexa. Obras estruturais, substituição de equipamentos ou reabilitação das partes comuns implicam custos elevados, entendimento entre muitos proprietários e capacidade para cobrar quotas e comparticipações num universo social e económico muito diversificado.
Ao longo dos anos, houve quem defendesse a demolição do edifício, considerando-o desajustado da malha urbana, uma solução claramente radical, agressiva e sem sentido. Outros sempre defenderam a sua recuperação, lembrando que a eliminação de mais de duas centenas de habitações obrigaria a encontrar soluções de realojamento praticamente impossíveis num concelho onde a oferta habitacional continua muito abaixo da procura. A discussão não é apenas arquitectónica. É, sobretudo, uma discussão sobre pessoas. A Ancorope não é um edifício abandonado nem uma estrutura vazia. É propriedade privada, local de residência de centenas de cidadãos e parte importante do parque habitacional de Sines.
Numa cidade onde os preços das casas aumentaram e onde trabalhadores de vários sectores enfrentam dificuldades crescentes para encontrar alojamento, perder mais de duas centenas de apartamentos não seria uma decisão sem consequências. Quase cinquenta anos depois do início da construção, a Ancorope continua a representar as contradições do crescimento de Sines. Nasceu de um projecto turístico ambicioso, foi adaptada às necessidades habitacionais de uma cidade em expansão e envelheceu sem que os sucessivos problemas encontrassem respostas definitivas.
Pode ser vista como um erro urbanístico, um símbolo de degradação ou uma oportunidade de reabilitação. Mas a sua história mostra também outra realidade: Durante décadas, quando Sines precisou de casas, foi ali que muitas pessoas encontraram um lugar para viver. Há histórias de vida. O maior desafio não está, por isso, em decidir se a cidade gosta ou não da Ancorope. Está em perceber como se cria uma estratégia para tentar recuperar um edifício habitado, proteger quem lá vive e evitar que a sua dimensão continue a servir de desculpa para adiar soluções. Já passaram mais de cinco décadas. Até quando?