
Durante demasiado tempo, o Aeroporto de Beja foi tratado como uma infraestrutura isolada, quase como se a sua utilidade dependesse apenas da capacidade de atrair alguns voos comerciais. Até de certa forma, utilizada para ridicularizar, e menosprezar uma região que merece todo o respeito.
É a chamada a visão curta. Um aeroporto não deve ser avaliado apenas pelo número de passageiros que atravessam o terminal, mas pelo território, pelas empresas e pelas atividades económicas que pode ajudar a ligar ao mundo. Para Sines, a abertura efetiva do Aeroporto de Beja a operações comerciais regulares representaria uma oportunidade importante. Não resolveria todos os problemas de mobilidade da região, nem substituiria Lisboa ou Faro, mas acrescentaria uma alternativa de proximidade capaz de melhorar a acessibilidade de todo o Alentejo Litoral.
Beja encontra-se a cerca de 110 quilómetros de Sines. Essa distância é suficientemente curta para permitir uma ligação funcional, desde que existam bons acessos rodoviários, transporte coletivo coordenado e horários ajustados aos voos. Para quem vive em Sines, uma deslocação aérea continua frequentemente a significar uma viagem até Lisboa ou Faro, com todos os custos associados: combustível, portagens, estacionamento, congestionamento e várias horas adicionais de percurso. Um aeroporto operacional em Beja poderia reduzir parte desse esforço, sobretudo em ligações de curta e média distância para destinos europeus.
O benefício seria igualmente relevante para as empresas. Sines recebe regularmente administradores, técnicos, investidores, tripulações, trabalhadores especializados e representantes de grupos internacionais ligados ao porto, à energia, à indústria, aos centros de dados e à logística. A existência de voos regulares em Beja poderia encurtar deslocações e facilitar o acesso ao maior polo industrial e portuário do sul do país.
Esta proximidade ganha ainda mais importância num território que procura atrair novos investimentos. Uma empresa não decide instalar-se apenas com base no preço do terreno ou na existência de energia. Avalia também a rapidez com que os seus quadros conseguem chegar, a facilidade de deslocação dos trabalhadores e a ligação aos principais mercados internacionais. Um aeroporto próximo torna o território mais competitivo, mas também mais humano. Facilita a chegada de profissionais especializados e reduz a sensação de isolamento que ainda acompanha muitas regiões afastadas dos grandes centros urbanos.
Existe também uma oportunidade para o turismo. Toda a faixa costeira possui capacidade para atrair visitantes estrangeiros, mas continuam demasiado dependentes do automóvel e dos aeroportos de Lisboa e Faro. Beja poderia funcionar como porta de entrada complementar, sobretudo para operações sazonais, voos charter e ligações dirigidas a mercados específicos.
No entanto, abrir o aeroporto sem organizar os transportes terrestres seria repetir um erro antigo. Um passageiro que aterre em Beja tem de encontrar uma ligação simples, rápida e previsível para Sines. Não basta colocar um autocarro ocasional. É necessário criar um verdadeiro serviço aeroportuário, com horários articulados, reserva integrada, espaço para bagagem e ligação direta aos principais centros urbanos e turísticos. A melhoria do IP8 é, neste contexto, essencial. Estão em curso intervenções entre Sines e a A2 e entre Ferreira do Alentejo e Beja, destinadas a aumentar a capacidade, melhorar a segurança e reduzir os tempos de percurso. No entanto, a ligação integral entre Sines e Beja continua longe de oferecer as condições de rapidez e continuidade que uma relação porto–aeroporto exige.
É precisamente aqui que o ordenamento do território deve entrar. O aeroporto não pode ser pensado isoladamente em Beja, da mesma forma que o Porto de Sines não pode ser visto apenas como uma infraestrutura localizada no litoral. Ambos devem fazer parte de uma estratégia regional comum, envolvendo ferrovia, rodovia, transporte coletivo, turismo, logística e desenvolvimento empresarial.O Aeroporto de Beja possui ainda potencial para operações de carga, manutenção aeronáutica, estacionamento de aeronaves, voos charter e serviços ligados à aviação executiva. A proximidade ao complexo industrial e portuário de Sines pode ajudar a criar complementaridades, nomeadamente no transporte urgente de componentes, equipamentos técnicos ou mercadorias de maior valor.
Mas é necessário manter os pés no chão. Não basta anunciar a abertura do aeroporto e esperar que as companhias apareçam. As rotas aéreas só sobrevivem quando existe procura, continuidade comercial e uma estratégia de promoção bem definida. Será necessário envolver municípios, empresas, operadores turísticos, entidades regionais, o Porto de Sines e a própria ANA. O Aeroporto de Beja já existe, encontra-se integrado na rede gerida pela ANA e dispõe de uma infraestrutura preparada para receber operações civis. O desafio não é construir mais um aeroporto. É aproveitar com racionalidade aquele que o país já pagou e que continua muito abaixo do seu potencial. Para Sines, a sua abertura regular não seria apenas uma questão de ter um aeroporto mais próximo. Seria uma oportunidade para reforçar a ligação da cidade aos mercados internacionais, melhorar a mobilidade dos residentes, apoiar as empresas e dar maior coerência económica ao território alentejano.Depois de décadas a olhar para cada infraestrutura separadamente, chegou o momento de ligar os pontos.
O Porto de Sines, o Aeroporto de Beja e as redes rodoviária e ferroviária devem ser vistos como partes do mesmo sistema. É dessa articulação meticulosa que poderá nascer um verdadeiro benefício para a região. Basta haver iniciativa e visão.
Autor: Jaime Lourenço.
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