Lado B: “A democracia local não pode viver de likes.”

Vivemos numa época em que as redes sociais ocupam um papel central na vida das pessoas e na forma como participamos na democracia. Nunca foi tão fácil denunciar um problema, apresentar uma ideia ou exigir responsabilidades aos eleitos.

Mas também nunca foi tão fácil destruir reputações, espalhar desinformação, manipular a opinião pública e transformar o debate político num espetáculo permanente. Enquanto o mundo avança rapidamente na utilização da Inteligência Artificial para resolver problemas concretos das cidades, muitas comunidades continuam presas a discussões estéreis, alimentadas por insultos, ataques pessoais e campanhas de difamação que nada acrescentam ao futuro coletivo.

A Inteligência Artificial já consegue ajudar a analisar problemas urbanos, melhorar a mobilidade, otimizar serviços públicos, identificar desperdícios de recursos, apoiar decisões estratégicas e encontrar soluções inovadoras para desafios que durante anos pareceram impossíveis de resolver. Em vez de utilizarmos estas ferramentas para pensar o futuro das nossas cidades, gastamos demasiada energia em conflitos pessoais e em guerras de comentários que apenas dividem a comunidade.

A crítica é um dos pilares da democracia e deve existir sempre. Questionar decisões, exigir transparência e pedir explicações a quem exerce cargos públicos é saudável e necessário. Mas existe uma enorme diferença entre fiscalizar e difamar, entre discordar e insultar, entre debater ideias e atacar pessoas. Quando a discussão pública deixa de assentar em factos e passa a viver de acusações, boatos e ofensas, perde-se a confiança nas instituições e degrada-se a qualidade da democracia local. A proliferação de perfis falsos ou anónimos agrava ainda mais este problema. Muitos são utilizados apenas para lançar suspeitas, espalhar rumores, atacar adversários ou criar artificialmente a sensação de que determinadas opiniões representam a maioria. O anonimato pode ter um papel legítimo em determinadas circunstâncias, mas nunca deve servir para fugir à responsabilidade das palavras ou para destruir a credibilidade de terceiros sem consequências.

Também a política local não escapa a esta realidade. Em vez de se discutir o futuro da habitação, da economia local, da segurança, da saúde, da educação ou do desenvolvimento do concelho, assiste-se demasiadas vezes ao crescimento de discursos populistas e demagógicos, onde o importante não é encontrar soluções, mas dizer aquilo que gera mais aplausos, mais partilhas e mais indignação nas redes sociais. Prometem-se respostas simples para problemas complexos, alimentam-se emoções em vez de argumentos e prefere-se a popularidade imediata ao trabalho sério e consistente. A política transforma-se num concurso de frases feitas e vídeos virais, quando deveria ser um exercício de responsabilidade, competência e visão para o futuro.

Uma publicação viral não resolve a falta de habitação. Um ataque pessoal não cria emprego. Um vídeo com milhares de visualizações não melhora os serviços públicos nem torna uma cidade mais segura. As redes sociais são uma ferramenta extraordinária quando colocadas ao serviço da comunidade, mas tornam-se um problema quando passam a premiar o conflito em vez da competência. A democracia local só sai reforçada quando os cidadãos valorizam quem apresenta propostas em vez de quem apenas cria polémicas, quando os eleitos são avaliados pelos resultados e não pelo número de gostos nas redes sociais, e quando a tecnologia é utilizada para aproximar pessoas e encontrar soluções em vez de aprofundar divisões.

O futuro das nossas cidades dependerá da capacidade de aproveitar o melhor da inovação tecnológica sem perder aquilo que nunca poderá ser substituído por qualquer algoritmo: O respeito pelo próximo, a honestidade intelectual, a responsabilidade cívica, a valorização dos órgãos autárquicos e a vontade genuína de construir uma comunidade melhor para todos.

Autor: Sérgio Santos.

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos seus leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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