Lado B: “Plano especial para Sines chega tarde e não pode ser imposto a partir de Lisboa.”

O Governo anunciou agora a intenção de intervir em Sines através de um plano especial, como se a pressão provocada pelos grandes investimentos fosse uma novidade inesperada. Não é. Nenhum dos investimentos que decorrem ou estão em projecto são qualquer tipo de novidade. O governo tomou posse a 2 de Abril de 2024. Não foi tempo suficiente para se inteirar dos dossiers?

O próprio Estado conhece há vários anos os projetos previstos para o concelho, os milhares de milhões de euros envolvidos e o impacto que esta transformação teria sobre a habitação, as infraestruturas, a mobilidade, os serviços públicos e a qualidade de vida da população.

Nada disto apareceu de repente. Enquanto os investimentos foram anunciados, licenciados e apresentados como grandes conquistas nacionais, pouco foi feito para preparar o território que os recebe. As rendas aumentaram, encontrar casa tornou-se cada vez mais difícil, os acessos continuam insuficientes e os serviços públicos não acompanharam o crescimento da atividade económica. Ou seja, antes dos investimentos se concretizarem, já dificultaram a vida tanto a sineenses como a portocovenses.

Sines suporta uma parte significativa do esforço estratégico do país, mas continua à espera que o país assuma as suas responsabilidades para com Sines. Um plano especial pode ser necessário, mas o anúncio, por si só, não resolve rigorosamente nada. Sines já ouviu demasiadas promessas, intenções e declarações de reconhecimento da sua importância. O que falta é execução, financiamento garantido, prazos concretos e responsabilidades claramente atribuídas.

A questão é saber se um Governo cuja capacidade reformadora e executiva continua por demonstrar terá energia política e competência para transformar mais este anúncio em medidas visíveis no território. Também não se aceitará que Lisboa desenhe um plano fechado e o apresente depois aos sineenses como uma decisão consumada. Um verdadeiro plano para Sines tem de nascer de um consenso político e institucional local sobre aquilo de que o concelho realmente necessita. Câmara Municipal, Assembleia Municipal, juntas de freguesia, forças políticas, associações, empresas, trabalhadores e população devem participar na definição das prioridades.

O futuro de Sines não pode ser decidido exclusivamente nos gabinetes dos ministérios por quem conhece o território apenas através de mapas. Sines não precisa de tutela nem de soluções impostas. Precisa de investimento público proporcional ao contributo que dá ao país, de habitação acessível, melhores acessibilidades, reforço da saúde, da educação, da segurança e dos restantes serviços públicos, além de garantias ambientais sérias. Precisa, sobretudo, de ser tratada como uma comunidade onde vivem pessoas e não apenas como uma plataforma industrial, energética, portuária e logística ao serviço da economia nacional.

O Governo já sabia que os investimentos vinham. Também sabia que a pressão estava a aumentar. Se só agora descobriu a necessidade de um plano especial, chegou tarde. Se já o sabia e nada fez, a responsabilidade é ainda maior. O momento exige menos propaganda e mais respeito por Sines, saber ouvir primeiro, decidir em conjunto e executar finalmente.

Autor: Sérgio Santos.

Nota: O Lado B é um espaço livre de intervenção dos seus leitores. As opiniões pertencem aos seus autores e não vinculam, nem representam, o Notícias de Sines.

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