
O Parlamento voltou a dar ao país um daqueles momentos que explicam bem a distância entre a vida real das pessoas e a política fechada sobre si própria. Foram discutidas 14 iniciativas sobre o aumento do custo de vida, entre propostas para baixar o IVA dos combustíveis, isentar bens alimentares essenciais, reduzir o IVA do gás, aliviar pensionistas ou rever encargos ligados às portagens.
No fim, caiu tudo.
E quando cai tudo, ninguém fica bem na fotografia. O Governo e os partidos que o apoiam podem dizer que muitas propostas eram incompletas, caras, eleitoralistas ou mal desenhadas. Podem até ter razão em parte. Mas quem governa não se pode limitar a chumbar. Tem de apresentar respostas credíveis, visíveis e rápidas para quem sente todos os meses o peso da alimentação, da energia, da habitação, dos transportes e dos medicamentos.
A oposição também não sai melhor. Chega, PS, PCP, BE, Livre, PAN, IL e JPP apresentaram ou apoiaram medidas diferentes, mas o resultado final mostra mais uma vez que o Parlamento se tornou uma máquina de bloqueio, encenação e cálculo partidário. Uns querem marcar posição. Outros querem impedir que o adversário ganhe uma vitória política. Outros abstêm-se para não ficarem comprometidos.
No fim, o cidadão comum olha para o recibo do supermercado e percebe que pouco ou nada mudou. É evidente que nem todas as propostas eram iguais. Algumas tinham impacto orçamental elevado. Outras precisavam de maior detalhe. Outras eram recomendações sem força de lei.
Mas isso não apaga o essencial: Havia um problema real em cima da mesa e o Parlamento respondeu com incapacidade colectiva.O custo de vida não é uma bandeira partidária. É a conta da luz, o combustível, o pão, o leite, a renda, a prestação da casa, a farmácia e o orçamento familiar apertado antes do fim do mês. Quando todos os partidos transformam esse tema numa disputa táctica, todos falham.
Portugal não precisava de 14 propostas chumbadas. Precisava de uma solução mínima, negociada, séria e aplicável. Nem que fosse temporária. Nem que fosse limitada aos bens essenciais. Nem que fosse sujeita a avaliação mensal. Mas precisava de algum sinal de que a política percebe o país que diz representar.
Ontem, o Parlamento falou muito sobre o custo de vida. Mas quem paga a conta continua a ser o mesmo.