
O Complexo Portuário, Logístico e Industrial de Sines representa um dos principais ativos estratégicos da economia portuguesa e tem um impacto que vai muito além do concelho e da região do Alentejo.
A conclusão resulta de um estudo promovido no âmbito do Invest in Alentejo, com cofinanciamento do Programa Regional Alentejo 2030 e da União Europeia, que analisou o contributo económico, social e externo do complexo para a economia nacional. O relatório avalia de forma integrada o Porto de Sines, a Zona Industrial e Logística de Sines e as zonas de indústria ligeira municipais, procurando medir o impacto direto, indireto e induzido da atividade instalada.
Segundo o estudo, o complexo gerou, em 2025, um impacto global de cerca de 1.891 milhões de euros em Valor Acrescentado Bruto, 46.941 empregos equivalentes a tempo completo, 1.236 milhões de euros em remunerações e 617 milhões de euros em receita fiscal.Os números apresentados confirmam o peso de Sines na economia nacional, mas mostram também que grande parte do valor gerado não fica apenas no território onde a atividade acontece. O estudo sublinha que mais de 95% do VAB total resulta de efeitos indiretos e induzidos, ou seja, de compras a fornecedores, cadeias de abastecimento, serviços associados e consumo gerado pelos rendimentos criados. Isto significa que o impacto do complexo se propaga para lá de Sines e do Alentejo, chegando a vários setores e regiões do país.
O Porto de Sines surge como peça central deste sistema. Em 2025, representou cerca de 51% do volume de carga movimentada nos portos nacionais, 93% do volume de granéis líquidos e 79% dos contentores movimentados em transhipment em Portugal. O estudo caracteriza Sines como uma infraestrutura essencial para o comércio externo, para o abastecimento energético e para a ligação do país às cadeias logísticas internacionais. Apesar disso, o relatório também identifica limitações. Sines é competitivo pela eficiência, pela profundidade natural, pela capacidade de receber navios de grande dimensão e pela articulação entre porto, indústria e logística, mas continua abaixo dos grandes portos europeus em escala, conectividade ferroviária e integração no hinterland. A comparação com portos como Roterdão, Antuérpia-Bruges, Algeciras e Tanger Med mostra que Sines tem vantagens estruturais importantes, mas precisa de reforçar ligações terrestres e capacidade logística para captar mais valor económico e não funcionar apenas como ponto de passagem de mercadorias.O estudo dá particular destaque ao investimento previsto para os próximos anos.
O pipeline associado ao complexo pode variar entre 13,5 mil milhões e 20,5 mil milhões de euros até 2032, dependendo do grau de execução dos projetos. No cenário central, são apontados 17,1 mil milhões de euros de investimento, com impacto potencial de 6.893 milhões de euros em VAB, 186.286 empregos equivalentes a tempo completo, 3.728 milhões de euros em remunerações e 1.906 milhões de euros em receita fiscal.Entre os grandes eixos de investimento identificados estão os data centers, a logística portuária, o hidrogénio verde, as moléculas limpas, a indústria descarbonizada, as baterias e novos projetos ligados à transição energética. O relatório refere um pipeline alargado superior a 25 mil milhões de euros em 2026, distribuído por 23 projetos em curso e investidores de 10 países, com destaque para áreas como digital e inteligência artificial, logística portuária, aço verde, hidrogénio e indústria de baixo carbono.Em operação plena, no horizonte de 2040, o impacto económico poderá variar significativamente conforme o cenário. No cenário central, o estudo estima uma produção de 21,7 mil milhões de euros, um VAB de 7,9 mil milhões de euros, 57.469 empregos equivalentes a tempo completo, 1.635 milhões de euros em remunerações e 2.126 milhões de euros em receita fiscal.
Num cenário mais favorável, o VAB poderá ultrapassar os 10 mil milhões de euros.Mas o relatório não apresenta apenas potencial. Também identifica riscos claros. A capacidade de execução é apontada como o principal desafio. A pressão sobre a habitação, mobilidade, serviços públicos e licenciamento municipal pode condicionar o ritmo dos investimentos. A disponibilidade de energia, a ligação à rede elétrica, os prazos regulatórios e a capacidade de resposta administrativa são fatores considerados decisivos para transformar intenções de investimento em projetos concretos.Outro alerta importante está relacionado com a falta de competências críticas.
O estudo identifica necessidades elevadas em engenharia, gestão de projeto, operações industriais, manutenção, energia, hidrogénio, sistemas digitais, cibersegurança e tecnologias OT/IT. Sem resposta formativa à escala necessária, o complexo poderá depender cada vez mais de recrutamento externo, aumentando a pressão sobre habitação e serviços locais.O relatório alerta ainda para o risco de concentração em poucos grandes projetos, alguns com incerteza tecnológica, financeira ou regulatória. Por isso, defende uma execução faseada, baseada na maturidade dos investimentos e na capacidade real do território para os absorver.
A leitura geral é clara: Sines tem condições únicas para se afirmar como plataforma nacional de indústria, logística, energia e transição digital, mas o impacto futuro dependerá menos dos anúncios e mais da capacidade de executar. Ferrovia, energia, licenciamento, habitação, formação profissional e serviços públicos aparecem como fatores determinantes para que o complexo deixe de ser apenas uma grande porta de entrada e saída de mercadorias e passe a capturar mais valor económico para o território e para o país.
O estudo confirma, assim, a relevância estratégica de Sines na economia nacional, mas deixa também uma mensagem prudente: o potencial existe, os números são expressivos, mas a concretização dependerá da capacidade de transformar investimento previsto em atividade económica permanente, emprego qualificado e maior integração com a região.
Imagem: ADRAL.