
Onde hoje se ergue o Centro de Artes de Sines existiu uma sala que marcou a vida cultural da então vila, e sendo sem dúvida, um criador de memórias para várias gerações de sineenses. O Cine-Teatro Vasco da Gama abriu portas em 1932 e, durante mais de meio século, recebeu filmes e espetáculos que fizeram daquele espaço um ponto de encontro entre o entretenimento, a criação artística e a comunidade.
A sua história ajuda a recordar uma época em que ir ao cinema era também uma forma de sair de casa, encontrar outras pessoas e descobrir o mundo através de um ecrã. O nome de cine-teatro traduzia a dupla vocação do edifício. A sala acolhia projeções cinematográficas, mas o palco também dava lugar aos artistas locais. Os testemunhos preservados pelo Museu de Sines permitem conhecer episódios concretos dessa atividade e mostram como o espaço se cruzou com a história do teatro amador sineense. Por exemplo no dia 28 de janeiro de 1941, o Grupo Cénico do Sport Lisboa e Sines apresentou ali um espetáculo que incluía as comédias “Maldita Exposição” e “A Casa de Babel”, além de variedades e uma opereta de costumes regionais. Entre os participantes encontravam-se Maria Teresa Palmela e António Amaral da Silva, nomes que ficariam ligados durante décadas ao teatro em Sines.
O palco servia igualmente causas da terra. A 13 de maio de 1941, uma récita realizada no Cine-Teatro destinou-se a apoiar o Hospital de Sines. Em março do ano seguinte, o mesmo grupo apresentou um novo programa, com a comédia “Guerra aos Nunes”, a opereta “A Flor da Aldeia” e números de variedades. Estes registos revelam uma atividade construída por atores amadores, músicos e pessoas dos bastidores, na qual o espetáculo também podia ser uma forma de solidariedade.
A documentação municipal acrescenta outro enquadramento: a vida da sala decorria sob as regras e o controlo do Estado Novo. Um guia do Arquivo Municipal regista que, após incidentes ocorridos em janeiro de 1946, a empresa foi avisada para cumprir as restrições à entrada de menores de 13 anos sem os pais e afixar avisos sobre a evacuação do recinto perante manifestações de desagrado do público. No mesmo conjunto documental surgem referências a melhoramentos no edifício e a sessões de cinema para beneficência.
O Cine-Teatro acompanhou também a evolução da exibição cinematográfica. Segundo o Museu dos Cinemas, em 1957 a empresa gestora instalou um ecrã de maiores dimensões, preparado para CinemaScope e VistaVision. Um programa de sala de agosto de 1969, preservado na coleção de Carlos Caria, anuncia uma comédia com Doris Day. Juntamente com um bilhete de ingresso, esse documento conserva um pequeno fragmento da programação e dos hábitos culturais daquele tempo. A fase final da atividade permanece menos bem esclarecida. O Museu dos Cinemas aponta um provável encerramento entre 1985 e 1990, admitindo uma utilização intermitente nos anos 80. Trata-se de uma estimativa, pelo que não é possível fixar, com base nessa fonte, a data da última sessão. O edifício seria demolido em 2000. No mesmo local começou, em abril de 2001, a construção do Centro de Artes de Sines, ocupando também o espaço da antiga oficina do Teatro do Mar.
O novo equipamento, concebido pelos arquitetos Francisco e Manuel Aires Mateus, reuniu biblioteca, arquivo, espaços de exposição e auditório, mantendo naquele ponto do centro histórico uma função cultural. A inauguração do Centro de Artes, a 26 de novembro de 2005, abriu um novo capítulo. O auditório recebeu o Bernardo Sassetti Trio e o centro de exposições apresentou trabalhos de Graça Morais realizados numa residência artística em Sines. O antigo Cine-Teatro já não existia, mas o lugar continuava a receber públicos, artistas e histórias. Recordar o Cine-Teatro Vasco da Gama é recuperar uma parte da história cultural de Sines que não se resume ao edifício.
Está também nos programas guardados, nos bilhetes sobreviventes e nos testemunhos de quem subiu ao palco ou se sentou na plateia, vestígios de uma sala onde a vila viu cinema, fez teatro e se encontrou.