
Gostamos de viver e sentir Sines. É aqui que temos a nossa casa, a nossa família, o nosso trabalho e as nossas memórias. É por isso que nos preocupa ter de fechar as janelas, principalmente de noite, por causa dos maus cheiros e não saber ao certo o que estamos a respirar. Este problema não é de todo novo e atravessa décadas.
Há gerações de sineenses que cresceram a ouvir as mesmas queixas e a viver o mesmo incómodo. Mudaram governos, responsáveis e empresas. Houve estudos, reuniões e medidas anunciadas. Apesar disso, os maus cheiros continuam a entrar nas nossas casas e a condicionar a nossa vida. Décadas são tempo demais para uma população continuar à espera de uma resposta eficaz. O passar dos anos não torna o problema aceitável. Torna mais urgente a obrigação de o resolver de uma forma eficaz.
Reconhecemos a importância da indústria e do porto. São fonte de emprego e sustento para muitas famílias, incluindo as nossas. Esse desenvolvimento deve trazer também condições para viver bem, com saúde e tranquilidade. Quem trabalha aqui e contribui para a riqueza do concelho merece poder regressar a casa e abrir uma janela sem receio.
Quando alguém relata dores de cabeça, náuseas ou irritação durante um episódio de mau cheiro, merece ser ouvido. Quando existem dúvidas sobre possíveis efeitos na saúde, merece respostas fundamentadas. Não podemos atribuir doenças à poluição sem provas. Também não podemos tratar a falta de informação como uma garantia de que está tudo bem. Queremos saber de onde vêm os cheiros, que substâncias estão presentes e em que concentrações. Queremos medições durante os episódios, nos locais onde as pessoas vivem, resultados divulgados de forma simples e estudos de saúde atualizados.
Mas conhecer o problema tem de conduzir à sua resolução. Cada estudo deve servir para orientar intervenções. Cada fonte identificada deve ter medidas de correção. Cada compromisso deve ter um responsável, um prazo e resultados verificáveis. À Câmara Municipal, às autoridades ambientais e de saúde, ao Governo, à administração portuária e às empresas pedimos um plano de atuação conjunto, com meios para o executar e acompanhamento público. É necessário prevenir os episódios, atuar quando acontecem e corrigir as suas causas. A população precisa de conhecer o que foi feito, o que falta fazer e quando poderá sentir melhorias. Os problemas que exigem obras demoradas devem ter um calendário claro e medidas que reduzam o incómodo enquanto a solução definitiva não chega.
A complexidade do problema exige trabalho coordenado e continuidade até haver resultados. Quem vive em Sines não deve ter de investigar sozinho aquilo que respira, nem apresentar repetidamente a mesma queixa nas redes sociais principalmente, sem saber o que mudou. As famílias precisam de poder confiar nas entidades que têm a obrigação de as proteger. Este manifesto nasce de uma preocupação comum e de uma espera que já dura demasiado tempo. Não queremos que os nossos filhos herdem este problema e, daqui a vinte anos, estejam a pedir as mesmas respostas. Queremos poder abrir as janelas, sair à rua descansados e deixar as crianças crescer com tranquilidade. Queremos uma cidade que cresça e cuide de quem cá vive.
Depois de décadas de maus cheiros, Sines precisa de soluções concretas, executadas e acompanhadas até produzirem resultados.
Este manifesto é um acto de cidadania e um apelo a que todos se juntem para encontrar uma solução que proteja a população. Porque a culpa não é dessa mesma população. Mas é por ela que tem de se exigir fazer algo. Por todos.