São Torpes: Entre a lenda do mártir e um dos primeiros episódios da arqueologia portuguesa.

São Torpes é hoje um dos lugares mais conhecidos do concelho de Sines. A extensa praia, a ribeira da Junqueira e a paisagem aberta sobre o Atlântico fazem parte da identidade do território. Contudo, por detrás do nome encontra-se uma história muito mais antiga, onde se cruzam uma lenda com quase dois mil anos, a devoção religiosa e um dos primeiros registos conhecidos de uma escavação arqueológica em Portugal.

Segundo a tradição, Torpes — também identificado como Salvio Torpes ou Torpetius — teria vivido em Pisa, no século I, durante o reinado do imperador Nero. Próximo da corte imperial, converteu-se ao cristianismo e recusou abandonar a nova fé, acabando por ser torturado e decapitado.A lenda conta que o corpo foi colocado numa pequena embarcação ou jangada, acompanhado por um cão e um galo, e lançado ao rio Arno. Depois de atravessar o Mediterrâneo e parte do Atlântico, teria chegado à costa de Sines, junto à foz da ribeira da Junqueira, no ano 67.Existem diferentes versões da narrativa. Numa delas, o corpo chegou à costa francesa, dando origem ao nome de Saint-Tropez, enquanto a cabeça teria alcançado Sines. Noutra, aconteceu precisamente o contrário. A tradição siniense sustenta ainda que o corpo completo do mártir desembarcou na Junqueira, local que mais tarde ficaria conhecido como São Torpes.A figura feminina desta história é Celarina, também chamada Celerina ou Catarina. De acordo com a lenda, era uma viúva romana que vivia na região e foi avisada em sonhos por um anjo para se dirigir à praia. Ali teria encontrado o corpo do mártir, ainda acompanhado pelo cão e pelo galo, sepultando-o nas proximidades da ribeira.

A tradição acrescenta que São Manços, considerado o primeiro bispo de Évora, mandou construir naquele local uma basílica dedicada ao santo. Alguns autores antigos chegaram a apresentar este edifício como um dos primeiros templos cristãos da Europa. Porém, nunca foram encontradas provas arqueológicas conclusivas da sua existência e vários investigadores consideraram pouco provável que essa igreja tivesse sido construída no lugar indicado pela lenda.

O episódio mais importante para a história documentada ocorreu em 1591. Segundo a narrativa histórica preservada pela tradição local, a procura das relíquias terá resultado de uma ordem do papa Sisto V ao arcebispo de Évora, para que fosse averiguada a existência das ossadas atribuídas ao mártir. A intervenção realizada junto à foz da ribeira da Junqueira revelou uma estrutura então descrita como um túmulo de mármore, contendo restos humanos que formariam um esqueleto sem cabeça. Foram também encontrados fragmentos de cerâmica e uma placa de xisto decorada. Nas proximidades apareceu ainda um crânio, que os responsáveis pelos trabalhos atribuíram a Celarina. Estas identificações refletiam, contudo, a interpretação religiosa da época e não constituem uma comprovação científica de que os restos pertencessem ao mártir ou à figura mencionada na lenda.As alegadas relíquias de São Torpes foram acondicionadas e transportadas para a Igreja Matriz de Sines. O seu paradeiro acabaria por se perder ao longo do tempo.A investigação arqueológica posterior identificou aquela estrutura como um monumento funerário pré-histórico. A sepultura que os homens do século XVI acreditaram pertencer a São Torpes seria, na realidade, muito anterior ao cristianismo.O que torna o caso verdadeiramente extraordinário é a forma como a intervenção foi registada. Foram descritos os trabalhos realizados, a configuração do monumento, os objetos encontrados e o modo como os restos mortais foram acondicionados e transportados. Um estudo do arqueólogo João Luís Cardoso considera este o mais antigo registo conhecido da escavação de um sítio pré-histórico em Portugal. O relato original, datado de 1591, ficou preservado através de uma transcrição incluída num códice redigido em 1695 e mais tarde estudado por investigadores.Junto à Junqueira permaneceu, porém, a memória da suposta sepultura. Em 1783, o capitão Alexandre de Campos Barros mandou colocar no local um calvário assinalando o ponto onde, segundo a tradição, tinham sido encontrados os restos de São Torpes. Do monumento sobrevive a base de pedra com a respetiva inscrição.A tradição refere igualmente a existência de uma ermida dedicada a Celarina numa das extremidades de Sines. O edifício ainda estaria de pé no século XVIII, mas acabaria por desaparecer.

Em 1969, o historiador siniense Arnaldo Soledade identificou algumas pedras que poderiam ter pertencido à antiga construção, embora essa proveniência não esteja arqueologicamente comprovada.São Torpes conserva ainda outra narrativa popular. Conta-se que existiu naquele lugar uma aldeia que foi completamente soterrada pelas areias durante uma grande tempestade. Oito dias depois, segundo a lenda, ainda se ouvia um galo cantar debaixo da terra. Não existem provas que permitam confirmar o episódio, mas a história permanece integrada na tradição oral associada ao lugar.Entre o que pode ser comprovado e aquilo que pertence à tradição, São Torpes ocupa um lugar singular na história de Sines.

A viagem milagrosa do mártir não pode ser demonstrada historicamente, tal como permanece por provar a existência da antiga basílica. Mas a procura das suas relíquias conduziu, em 1591, à abertura e descrição de um monumento pré-histórico, transformando aquele pedaço da costa siniense num lugar de referência para a própria história da arqueologia portuguesa. Muito antes de se tornar uma das praias mais procuradas do Litoral Alentejano, São Torpes já era um território de fé, mistério e memória. O nome que hoje identifica a praia continua, assim, a transportar uma narrativa que liga Sines a Pisa, a Saint-Tropez e aos primeiros séculos do cristianismo — uma história onde a lenda e a ciência se encontram diante do mesmo mar.

Fontes: João Luís Cardoso, O mais antigo registo conhecido da escavação de uma estação pré-histórica em Portugal (2017); Museu Nacional de Arqueologia; Câmara Municipal de Sines; Estêvão de Liz Velho, Exemplar da Constância dos Mártires em a Vida do Glorioso São Torpes (1746); e estudos de José Leite de Vasconcelos e Arnaldo Soledade.

Imagem: Reconstrução artistica.

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